Moscouzinho, por Cia de Foto

Por DAIGO OLIVA

Leia abaixo uma crítica feita pelo coletivo paulistano Cia de Foto do recém-lançado livro “Moscouzinho”, de Gilvan Barreto.

 
 

“ Marxismo-Leninismo? Definir?

Quando o sol está se pondo tudo é vermelho,

depois ele desaparece, mas no meu coração o sol nunca se põe.”

Yvone, personagem do filme La Chinoise, 1967, de Jean-Luc Godard


 

Um país possível: um ‘Estado” chamado Moscouzinho.

Existem momentos que nos perseguem como se quisessem ser fotografias.

E isso acontece na vivência mais simples e imediata quando a realidade se desvela sem a mediação de nenhum dispositivo.

Tem horas que um simples gesto de reparar na vida cotidiana nos move para um estado fotográfico.

Nessa hora em que a vida ganha uma certa espessura a fotografia se torna fisiológica. Ela age na percepção como devir mais do que como memória, organiza possiblidades mais do que lembranças e, assim, nega a interrupção concreta dos instantâneos.

E como reter estas fotografias? Como ocupá-las de nossas vidas?

As imagens do livro Moscouzinho podem ser vistas, em um sentido contemporâneo, como criadoras de um Estado que tenciona a nossa corriqueira relação com o tempo. É como se Gilvan Barreto, o autor dessa obra, ao recordar de uma paisagem especialmente atual, a lembrança de algo ainda prestes a se apresentar, nos oferecesse um “agora” que se realiza como experiência, confundindo os sentidos que definem memória e desejo.

Como uma tela armada que alarga e mobiliza cenas em nosso acervo imagético, esta fotografia é um querer involuntário, e nos faz duvidar da condição de estarmos de fato acordados ou assistindo suspensos a nossa imaginação trabalhar. Nessa distância que se provoca em um real necessariamente vivido constitui-se o que entendemos por Estado Fotográfico, e é nesse espaço que Gilvan aporta, fincando a bandeira vermelha construída pelo artista plástico Lourival Cuquinha com cédulas cubanas.

Assim delimita-se um país possível, que ora se organiza em ilhas fotográficas, ora se apresenta em textos de Diógenes Moura, Xico Sá e Fred 04.

As imagens do livro Moscouzinho fazem uso desse estatuto. As cenas escolhidas são fotos imediatas, da vida íntima de Gilvan Barreto, porém, estado que provocam antes de se tornarem fotografias captadas. Como pensa a pesquisadora Claúdia Linhares Sanz: “trata-se de uma fotografia que não se efetiva pelo clique, mas pela entrada repentina num estado próprio, num conjunto provisório de configurações e tensões temporais, […] fazendo perceber não apenas minha presença (inscrita em atualidade da qual não se pode esquivar) e a presença de inúmeros murmurinhos passados, mas também minha ausência, futura embora iminente (a mesma que abafou as muitas vozes que viveram ali antes de mim)”.

As fotografias desse trabalho se valem do estado que subverte a condição sucessiva do tempo e reconfigura naturalmente a forma de experimentar, entre atualidade e virtualidade, o que figura-se da vida do fotógrafo.

As cenas do Moscouzinho são momentos próximos, simples, destacados da distância constituída entre a cidade que Gilvan nasceu e o “país” criado nessa publicação política.

Cia de Foto