De Dentro #2

Por DAIGO OLIVA

Nessa semana, o De Dentro é com o colunista da Folha Marcos Augusto Gonçalves. Para quem não viu a primeira postagem desta seção: uma pessoa elege uma imagem importante em sua vida (uma fotografia, um quadro, uma capa de disco, um postal, o que vier a cabeça) para relembrar memórias e sensações ou relatar o porquê daquela figura ser tão fundamental. Aproveite.

Essa imagem me pegou moleque, com 12 para 13 anos. Os atletas Tommie Smith e John Carlos erguem os punhos com luvas pretas, na saudação característica do Black Panther, partido revolucionário negro americano.

Aconteceu na Olimpíada do México, no simbólico ano de 1968. O gesto, durante a execução do hino dos EUA, foi uma das primeiras performances políticas que usou a mídia global para se propagar. Teve enorme repercussão. Lembro das fotografias em preto e branco e depois de ter visto um documentário colorido sobre a Olimpíada, no cinema.

Fiquei muito impressionado com a beleza do gesto, a ousadia e seu senso de justiça. Aquilo também aumentou meu interesse pela cultura negra nos EUA e também aqui. Angela Davis foi talvez minha primeira heroína, no sentido adolescente e pop do termo. O atleta branco, Peter Norman, é australiano. Foi ele quem sugeriu a Carlos que vestisse a mão esquerda da luva de Tommie – pois havia esquecido de levar a sua. O gesto “certo” dos Panteras era com o punho direito. Black is beautiful.

Marcos Augusto Gonçalves é colunista da Folha.