Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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O que acontece quando nada acontece

Por DAIGO OLIVA

É difícil explicar o que acontece em São Paulo na maior parte do tempo.

Costurada por contos surreais e atos fantásticos, a cidade costuma se tornar explícita majoritariamente no momento final de suas histórias. Quando grandes movimentos borbulham ao ponto de explodir, é o momento decisivo que se revela.

Embora mais próximo do real, em diversas vezes se apresenta caricato, tortuoso, contado pela metade.

Mas, o que acontece quando nada acontece? Escanear a cidade em seus instantes mais silenciosos, invisíveis e sem rosto é um grande mistério. Criar o que se passa com pedestres perdidos, sugerir biografias, investigar possibilidades, tudo isso é próximo ao olhar do voyeur em seu local preferido: a janela.

Será lançado no próximo dia 25 de janeiro, durante a quarta edição da Mostra São Paulo de Fotografia, o livro “São Paulo de Todas as Sombras”, do casal de fotógrafos franco-brasileiro Marc Dumas e Lucia Guanaes, juntamente ao escritor e curador de fotografia Diógenes Moura.

Os anônimos são as estrelas dessa publicação. De janeiro de 2009 a fevereiro de 2012, Dumas e Guanaes se hospedaram em 11 hotéis pelo centro de São Paulo, durante ciclos de no mínimo 24 horas, de onde puderam registrar o movimento banal e ignorado da cidade.

São quase 120 imagens “atrapalhadas” por fios, postes e árvores que retratam o cotidiano de pessoas escondidas em capuzes, cobertores, papelões, ou mesmo por sombras que o título sugere, que ao final, são São Paulo.

Ao contrário do momento decisivo, onde barreiras são quebradas e a investigação jornalística se aproxima, o olhar distante divaga. Diógenes Moura refez o mesmo processo do casal, ao se hospedar em alguns dos hotéis e, a partir da observação dessas mesmas pessoas, criou contos que acompanham as fotografias do livro.

É justamente um desses contos que o Entretempos apresenta em primeira mão e que você confere a seguir.

Boa leitura.

O equivalente simbólico

“Aquele homem sem nome não é o mesmo que está dentro da fotografia caminhando ao
lado da grande escultura de aço, no marco zero da cidade onde todos entram pela porta
da frente na igreja para pedir alguma coisa e, para compensar, acendem velas. Não é o
mesmo porque o outro que caminha na direção contrária acaba de sair do supermercado
sorrindo como se estampasse a propaganda de uma embalagem de creme dental. Esse
vive entre o supermercado e a banca de revistas da esquina e o outro – o que está do
lado da grande escultura de aço próximo da igreja – também não tem nome. Nem um
nem outro. Aqui do lado de dentro dessa porta de hotel de onde posso enxergar os
dois, ninguém tem nome porque somos todos iguais com o que resta em nossas micro-
intimidades. E cada vez que dizemos o nosso nome na portaria dessa espelunca próxima
ao marco zero, pelo menos o homem com bigode bem fininho não mente para nos dar
a impressão que somos exclusivos. Tanto faz. Foi daqui desse mesmo apartamento,
olhando em direção à praça que a moça que faz fotografias, sua câmera, seu estômago,
seu cigarro, seu destino viu um dos que vivem na rua chamar os cachorros para
morder o outro, que também vive na rua, e que acabara de roubar um taco de nadas
que mais um dos que tentavam dormir na rua guardava dentro do bolso. O dia estava
amanhecendo.

Então o homem, esse, o de agora eu o encontrei dentro do elevador, sem nome dentro
e fora do elevador, em cima e embaixo da marquise do hotel, falando baixinho para a
mulher com os seios saindo pela boca que gostaria muito de lhes falar sobre o seu (dele)
passado. O outro, o que é feito de palavras se confunde com todos os personagens que
aparecerão sozinhos dentro das próximas fotografias. Foi quando o homem de agora
acendeu a luz no pequeno hall, encostou seus músculos nos seios da mulher, pronunciou
algumas palavras, desceu correndo a escada de serviço e partiu em direção aos dentes
das ruas. Nenhum cachorro latiu.

Agora anoiteceu outra vez. A grande escultura está sozinha. Equilibra-se como um
quadrado sobre o asfalto. Poderá ser reconhecida como uma esfinge urbana dentro da
página horizontal. Sua pele de aço surta a pele da rua. O guindaste barulhento levanta
a grua para observar as luzes da cidade. Aqui o pequeno abajur redondo ilumina a
imagem em preto e branco de outro homem sem nome, cego, que toca acordeom em
um banco do metrô. Do lado de fora da janela o vento sequer arranha a pele da grande
escultura. Todos os passantes carregam no olhar a sutileza dos seus signos. Apenas um
deles empurra uma estrutura de ferro como um carro de corrida para pedestre lotado
de bujões de gás. Gás. Ar. Estrutura de ferro. Passantes em seus carros de corrida no
silêncio da cidade. Quantas vagas para automóveis existem no edifício onde você mora?
O homem cego com o acordeom acaba de subir a escada rolante do metrô. O outro
homem sem nome cruza o quadrado da escultura de aço sorrindo como se estampasse a
propaganda de uma embalagem de creme dental”.

– Diógenes Moura

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