Cinema fora do cinema

Por DAIGO OLIVA

Sabe aquele especial de fim de ano que reúne todos os melhores artistas que se destacaram em 2012? Em que os eleitos são convidados ao palco por um carismático apresentador e são fadados a escutar declarações de parentes e amigos distantes até chorar?

Existe um mundo onde isso não existe. E é um mundo muito legal.

O jornal americano New York Times produz anualmente uma edição que propõe aos atores e atrizes mais badalados do ano interpretar temas ou situações completamente diferentes das que viveram recentemente no cinema.

“The Hollywood Issue” existe a mais de 10 anos, mas desde 2010 sua forma mudou completamente, quando o conceito se tornou a produção de mini-filmes.

Na estreia, gente como James Franco, Natalie Portman, Javier Bardem e os olhos gigantes de Tilda Swinton simularam arquétipos clássicos do cinema. O conquistador, o cara que quebra todas as peças da mesa de jantar, a chorona… Tudo com produção muito simples.

Acima, Jesse Eisenberg, o Mark Zuckerberg de “A rede social”. Abaixo, Tilda Swinton. Reprodução/The New York Times

Num fundo infinito cinza e pouquíssimos objetos, o cenário não passa de um estúdio para teste de elenco com luz refinada. Assim, foi a real expressão do ator que deu vida aos vídeos que pouco ultrapassam um minuto de duração.

Em 2011, a fotógrafa Alex Prager conduziu “Touch of Evil”, uma reunião de vilões do cinema.

Enquanto em um surreal plano sequência invertido Rooney Mara interpreta Alex, de “Laranja Mecânica”, Jessica Chastain é uma alegre incendiária. As cores fortes, tão presentes no trabalho de Prager, são facilmente reconhecidas em todos os vídeos.

Além das duas atrizes, George Clooney faz um tirano muito parecido com Napoleão e Ryan Gosling é um homem-invisível.

O tom de todos os personagens é cômico. “Não sei se o homem-invisível é um vilão ou não, mas eu não confio nele. Diz que vai pra algum lugar, mas nunca aparece”, disse Gosling ao NYTimes.

Jessica Chastain, que atuou em “A árvore da vida”, em foto de Alex Prager

Ano passado, a seleção feita pelo jornal foi puramente feminina. “Wide-Awake” é a reunião dos sonhos de treze mulheres em ambientes abertos, fora dos estúdios. As versões anteriores dos mini-filmes foram todas filmadas em ambientes controlados, distantes do mundo real.

A edição de 2012 é ousada justamente porque o fotógrafo Tierney Gearon construiu sonhos cinematográficos com orçamentos incomparáveis aos usados por grandes estúdios.

Emmanuelle Riva, de “Amor”, Anne Hathaway, de “Os Miseráveis” e Kerry Washington, de “Django Livre” são algumas das atrizes que formam o elenco do último ano.

Embora o New York Times não deixe embedar os vídeos em nossa página, você pode ver todas as produções clicando aqui (2010), aqui (2011) e aqui (2012).

A pergunta é: quando teremos algo parecido aqui?