Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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25 vezes São Paulo

Por DAIGO OLIVA

O aniversário de São Paulo é só amanhã, mas decidimos adiantar as comemorações.

Para começar, convidamos 5 fotógrafos de estilos completamente diferentes para nos mostrar uma interpretação da cidade a partir de seus trabalhos.

São 5 fotos de cada artista, totalizando 25 vezes São Paulo.

Você vai perceber o ritmo quebrado e as interrupções da urbe através das intervenções de Mariana Tassinari.

A iminência da violência na guarita de segurança que está sempre ali, mas por muitas vezes vazia, nos objetos imagéticos de Gabo Morales.

A briga por espaço e as histórias de milhares de pessoas que são atraídas e repelidas pela cidade o tempo todo. Isso está nas fotografias de Bruno Miranda.

Nos panoramas de Norair Chahinian é possível encontrar a vista gigantesca, ampla, que deixa escapar os pormenores e embaça a vista através de seu gigantismo.

Ou então os olhares quietos e perdidos de jovens que aqui vivem. É só ir até o igualmente jovem Derek Fernandes.

São Paulo é feita de milhares de visões. Essa é a maneira como 5 fotógrafos a enxergam e que o Entretempos compartilha com você.

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Norair Chahinian

“São Paulo foi apresentada à fotografia no ano de 1862 por Militão Augusto de Azevedo.

Pioneiro, Militão vislumbrou um álbum comparativo em 1887, onde fotografou a cidade de diversos ângulos similares. Apesar do desafio, São Paulo era uma pequena vila e o alto de um morro.

O fim de uma rua ou o cruzamento de duas delas era suficiente para um panorama da cidade.

Ficaram as imagens como documentos iconográficos históricos. Hoje, a pluralidade e a escala de megalópole talvez possam ser captadas por satélites e helicópteros, método escolhido para este ensaio.

Mas e os pormenores dos habitantes e seu “modus operandi”? E a escala do pedestre? A diversidade arquitetônica? A discrepâncias e injustiças sociais? Ficam aqui algumas imagens para instigar o pensamento e a interpretação…”

Em um paliteiro sob o céu poluído

Ser da minoria intramuros ao redor de área verde central

Empilhados e sem horizontes

A maioria no lado a lado da periferia

O destino final de todos

Norair Chahinian é arquiteto e fotógrafo. Em 2008, lançou o livro “Armênia”

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Mariana Tassinari

“Para ser sincera, São Paulo demorou para entrar no meu trabalho. No início, era muito mais fácil olhar para os lugares nos quais estava de passagem, mas com o tempo fui criando formas de flanar na minha própria cidade e dessa relação foram surgindo essas intervenções”.

Mariana Tassinari nasceu em São Paulo, em 1980. Trabalhou como assistente da fotógrafa Inaê Coutinho e da artista plástica Marcia Xavier. Recentemente, participou do projeto Zip’Up, na Zipper Galeria, onde apresentou “Requadros”, exposição com curadoria de Mario Gioia

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Gabo Morales

“Com cinco fotografias é possível definir São Paulo como se bem entende.

Selecionei então alguns objetos que encontrei na cidade. Sozinhos, são apenas curiosos (ou banais). Juntos, contam uma história particular, de alguma ficção.

Eu teria centenas de opiniões otimistas e laudatórias sobre a metrópole onde vivo há tantos anos, mas acho claro que, mesmo em tempos de violência e paranóia, a vida segue pra frente.

E é pra lá, no seu ritmo, que São Paulo está indo”.

O fotojornalista Gabo Morales trabalha atualmente em um projeto pessoal em que documenta o cotidiano de Marsilac, um distrito largamente rural localizado no extremo sul da capital paulista. Junto a outros três fotógrafos é sócio-fundador do escritório de fotografia Trema

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Bruno Miranda/Na Lata

“Caminhando pelo centro de São Paulo é impossível não perceber o choque entre os moradores de rua e os prédios abandonados.

O espaço ocioso coloca em questão a especulação imobiliária que impossibilita cada vez mais o acesso aos moradores de baixa e média renda a uma vida que não na periferia.

No último dia 06, 200 destas fámilias ocuparam um destes espaços subutilizados. Mas este espaço era diferente, pois estava destinado a abrigar o Memorial da Democracia.

Desde então venho trabalhando nesse projeto, com a esperança que a democracia do Memorial não fique só no nome”.

Aldeci Ailton Ferreira, vendedor de capa de chuva quando chove, de água quando esquenta e de doces no final da tarde. Desde 2002 alterna indas e vindas. São Paulo x Berilo, no Vale do Jequitinhonha. Lá nunca trabalhou, aqui não passa um dia sem trabalhar. “A maior diferença entre São Paulo e o Vale é que lá nós temos muita terra e pouco trabalho, já aqui falta terra e sobra trabalho. Só quero ajudar meus pais no Vale”

Domingos Carvalho de Araújo, desde 2009 em São Paulo. Segundo ele, o rei de Cabrália. Deixou a mulher e 7 filhos na cidade natal para tentar a sorte em São Paulo. “Tenho dois terrenos bons em Cabrália, mas não adianta porque não dá pra morar, preciso de dinheiro para construir. Morei três meses na rua antes de chegar aqui, mas se não pagar aluguel consigo juntar o que preciso”

Marcela e Jaqueline, paulistana da sul. Desde que se separou do marido teve de voltar para casa da mãe com suas duas filhas, mas lá vivem 2 irmãos e 6 sobrinhos. “Tá muito apertado e minha mãe não merece passar por isso”

Geovani Braga, três anos em São Paulo. Profissão: faz tudo. Vindo de Tatipoca, no Ceará, não aguentou as três secas seguidas de sua região. Não tinha trabalho nem planta em sua cidade. “Tava morando num barraco de madeira na Gusmões, mas de noite não dava para dormir, muita briga com os ratos”

Maria Odete Gonzaga de Souza, nascida e criada num orfanato. Até os 12 anos viveu lá, depois foi “adotada” para ser doméstica numa casa, onde viveu até os 17 anos, quando se casou com o pai de 4 dos seus 6 filhos. Quando foi abandonada pelo marido mudou-se para o Moinho, mas no último incêndio perdeu sua casa. “As meninas estão bem, mas os meninos não, um tá na droga e o outro na Febem, só quero um canto pra criar elas sossegada”

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Bruno Miranda começou a fotografar documentalmente em 2001, registrando durante 3 anos o ensaio “a margem”, que retrata o cotidiano de famílias hippies. Nos dois anos seguintes se dedicou a fotografar o movimento hiphop capixaba, trabalho que desenvolve até hoje. Passou por jornais como a Gazeta-ES e, posteriormente, a Folha. Em 2007, junto a Renato Stockler, criou a agência Na Lata
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Derek Fernandes

“Sou de uma geração que já nasceu na era digital.

Quando ganhei minha primeira câmera analógica, há cerca de dois anos, imediatamente saí registrando todas as pessoas e os lugares que eu mais gostava em São Paulo.

E, pela primeira vez, pude aprender e ganhar com os meus erros e contratempos.

Alguns rolos depois, comecei a perceber que o que buscava era uma ligação entre essas pessoas e a forma como elas vivenciam a cidade.

A cidade deixou de ser apenas palco ou plano de fundo e se tornou um personagem, como a paulistana isolada no alto de um edifício nos Jardins, os frustrados com o transporte público ou aqueles que, em sobrados da zona oeste, apenas esperam por algo ou alguém que desconhecemos.”

Derek, 22, é estudante de arquitetura e urbanismo.

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Amanhã, dia 25, aniversário da cidade, ninguém menos que o genial Cristiano Mascaro irá nos presentear com as melhores imagens que fez de São Paulo durante toda a sua carreira, comentando fotografia por fotografia.

Isso que é presente.

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