Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Cristiano Mascaro

Por DAIGO OLIVA

Cristiano Mascaro é a simbiose de fotografia e arquitetura.

Aos 68 anos, pode se dar ao luxo de ser considerado um dos maiores fotógrafos que já documentou São Paulo.

Da mesma forma que um retratista pede à modelo que se mova levemente – em busca da melhor posição corporal -, Mascaro percorre ruas até encontrar o lugar que faz com que as construções se encaixem nos espaços da metrópole.

Assim, influenciou dezenas de fotógrafos e estudantes, determinando inconscientemente o modo de ver São Paulo pelo viés arquitetônico.

Como toda grande referência, foi usado para o bem e para o mal.

O espectro que construiu foi imitado e reproduzido de forma rasa por muitos que tentaram registrar a cidade pelo mesmo olhar, mas esbarraram nos clichês de linhas que nada formam e prédios que pouco ou nada têm a acrescentar à cidade.

A maioria se aproximou como uma caricatura. Mas a culpa é dos outros, e não dele.

Mascaro e a cidade: em cima da marquise do edifício Mirante do Vale, no centro de São Paulo, em foto sem data de Suzana Coronelos

Limitar a fotografia de Cristiano Mascaro aos prédios e ruas soa como trapaça.

Fotografou e fotografa muita gente, registrou lindas imagens da cena musical do fim dos anos 60, assim como fez um dos retratos mais bonitos do também genial arquiteto Vilanova Artigas, sem contar os anos como fotojornalista na revista Veja.

Na comemoração do aniversário de São Paulo, o Entretempos pediu ao artista que nos contasse a história de dez imagens que marcaram sua trajetória.

Nos relatos abaixo, Mascaro usa suas próprias fotografias – escolhidas entre 1983 e 2008 – como desculpa para relembrar momentos de sua juventude, celebrar arquitetos que deixaram marcas pela cidade ou apenas remontar uma época em que os cinemas de rua eram maioria.

Enquanto São Paulo completa 459 anos, perguntamos ao fotógrafo sobre o tempo de carreira.

“Putz, que indiscrição! Mas já que você insiste, comecei no jornalismo em 1968. Portanto, 44 anos, pois 2013 não vale. Estou assustado, é a primeira vez que faço a conta”, disse.

Ta tudo certo, Mascaro.

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Escadas rolantes

“As galerias do centro são um dos principais locais de comércio e de convivência da cidade.

Há de tudo por lá. Lanchonetes, lojas de áudio, vídeo e fotografia, óticas onde ainda encontramos armações redondinhas, cabeleireiros unissex, sendo a Galeria do Rock um fenômeno de movimentação de jovens à procura de qualquer coisa que incremente seu visual punk.

No entanto, as Grandes Galerias que fotografei na década de 80 era um local quase abandonado com pouquíssimas lojas funcionando e vários andares por onde se chegava subindo por um conjunto gigantesco de escadas rolantes, todas quebradas.

Um tanto esgotado, por estar carregando câmeras pesadas, diversas lentes e ainda um desajeitado tripé, alcancei o último andar e, ao apoiar-me na balaustrada para respirar e me recompor, dei com esta cena surpreendente.

Não tive dúvida. Ainda ofegante e aflito, montei todo meu aparato fotográfico rapidamente e fiz a foto antes que apagassem as luzes”.

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Avenida São João

“De todas as ruas e avenidas de São Paulo, a que mais caminhei pelas calçadas, certamente, foi a avenida São João.

Era o caminho natural de minha casa para o centro da cidade no tempo em que se andava muito a pé.

Para ir à escola e ao cinema, algumas vezes pegava o bonde, mas quase sempre ia caminhando pela São João encantado com os altos edifícios que já existiam naquela época, arrematando a perspectiva do Banespa lá no fundo.

A uma certa altura da avenida, me espalhava pelo centro para assistir um filme no Ipiranga, no Marabá, no Coral ou em qualquer outro cinema, para depois saborear um cachorro quente na Salada Paulista”.

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Carregadores de sacos de farinha

“Dentre os muitos retratos que já fiz em minhas caminhadas por São Paulo, aí está um de meus preferidos.

Foi feito durante meu primeiro trabalho de documentação urbana, uma proposta de registrar as mudanças pelas quais passava o bairro do Brás durante a construção do metrô.

Caminhando pela zona cerealista nas cercanias do Mercado Municipal dei de frente com estas duas figuras que me pareceram belíssimas estátuas gregas.

Tenho a impressão de que modelos profissionais não seriam capazes de posar com tamanha pompa e dignidade”.

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Vila Penteado

“Este é o belíssimo corrimão da escadaria da Vila Penteado, hoje o mais belo edifício em estilo art-nouveau da cidade.

Antiga residência da família Álvares Penteado, projetada pelo arquiteto sueco Carlos Ekman, foi doado à Universidade de São Paulo para sediar a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, onde estudei.

Estes detalhes sinuosos na madeira fazem parte de minha memória afetiva e me fazem recordar com saudade dos professores, dos colegas e das passeatas que fazíamos em protesto à ditadura militar.

Mas desta, não sinto saudade alguma”.

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Rampas de Bienal

“São Paulo possui inúmeras obras projetadas por Oscar Niemeyer, boa parte delas concentrada no Parque do Ibirapuera.

E lá, o edifício certamente mais visitado é o Pavilhão da Bienal, que abriga uma das criações mais belas da arquitetura mundial: as rampas que nos levam do térreo ao último andar.

Não hesito em afirmar que, das inúmeras Bienais que já visitei, quase sempre a mais bela das obras expostas são, invariavelmente, estas belas e sinuosas formas de concreto desenhadas pelo grande arquiteto”.

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Parque D. Pedro

“Ele já não é mais o mesmo do meu tempo de Parque Shangai, um parque de diversões que periodicamente ali se instalava quando ainda reinavam a roda-gigante, o trem-fantasma, o tapete mágico e os carrinhos de dar trombada.

Hoje está desfigurado por um complexo absurdo de viadutos, muitos deles, desconfio, totalmente desnecessários, como o chamado “Diário Popular”.

Ia ser demolido e, este sim, ao contrário do São Vito, merecia.

Assim como um absurdo edifício-garagem altíssimo que desobedece o gabarito da região. No entanto, dou a mão à palmatória, acabei usufruindo desta aparente irregularidade.

Foi lá do alto dos não sei quantos andares que fotografei, já à noitinha, os automóveis com seus faróis trêmulos por conta das ondulações do asfalto”.

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SPFW

“Não sou um fotógrafo de moda, mas como sou marido e pai de estilistas, tenho um pé neste universo fascinante e efervescente.

E o que me faz eventualmente fotografar alguns desfiles são os convites que Paulo Borges, um dos melhores exemplos do empreendedorismo paulistano e criador do SPFW, me faz para registrar, em uma espécie de making of, algumas edições do evento.

Numa dessas ocasiões registrei aquele momento vital quando a modelo dá um rodopio na passarela após, durante uma fração de segundo, encarar a multidão de fotógrafos que se espremem e disputam o melhor ângulo no chamado ‘pit’.

E que pelo fato de estarem encurralados em um espaço muitas vezes exíguo, era chamado no meu tempo de repórter fotográfico de ‘chiqueirinho’”.

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Edifício São Vito

“Muitas vezes não se derrubam edifícios construídos irregularmente, como li nos jornais um dia desses.

E resolveram por abaixo justamente o São Vito! Edifício de bela arquitetura modernista, deveria ser preservado, pois já fazia parte da paisagem da cidade e abrigava uma população estreitamente ligada ao movimento do Mercado Municipal e arredores.

Não era uma construção irregular, nem ameaçava cair.

Bastaria reorganizar sua ocupação para que ele continuasse a reinar, soberano, diante do Parque D. Pedro”.

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Viaduto do Chá

“Esta bela obra projetada pelo arquiteto Elisiário Bahiana em estilo art-déco ligando o Centro Velho ao Centro Novo de São Paulo, acaba sendo um desafio aos fotógrafos, de tanto que já foi fotografada.

Tornou-se um cartão postal e imagino que cada um de nós não queira repetir a dose.

Portanto, animei-me quando, do alto do Othon Palace Hotel, pude observar o viaduto iluminado por aquela luz rasante de final de tarde e os paulistanos caminhando acompanhados de suas sombras longas, alguns de volta para casa, outros indo para o trabalho.

A qualquer hora do dia, esta cidade não para”.

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Banespa

“O banco já mudou de dono, seu nome oficial é Edifício Altino Arantes, mas com o maior respeito pelo ex-governador do estado de São Paulo e primeiro presidente do banco, não há com deixar de chamá-lo de, simplesmente, Banespa.

Muitas vezes, até de Banespão.

Durante muito tempo foi o símbolo da grandeza e da pujança de São Paulo, mas com o passar do tempo perdeu a posição de cartão-postal da cidade para o Copan.

Afinal, nada é eterno, sobretudo em uma cidade que se destrói e se reconstrói, sem remorsos, a cada década.

Mas, este edifício desenhado pelo arquiteto Plínio Botelho do Amaral, não perde a majestade.

Implantado em um ponto alto do centro, pode ser observado de diversos ângulos da cidade, como este, ao amanhecer, cercado de edifícios menores que enfatizam sua silhueta elegante e delgada”.

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Feliz aniversário, São Paulo. Obrigado, Cristiano Mascaro.

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