Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Quando a história é boa, é verdade

Por DAIGO OLIVA

O que você vai ler a seguir é uma matéria sobre um livro documental que retrata o cotidiano de imigrantes guineenses em Guangzhou, na China.

Entre março e agosto de 2011, um fotógrafo retratou a vida de dezenas de homens e mulheres de Guiné-Bissau, ricos e pobres, bem ou mal-sucedidos, muitas vezes nas periferias chinesas ou imersos na vida cultural do país.

Entendeu? Que bom.

Agora vire tudo de ponta cabeça, pois nada disso aconteceu.

Mas é bom ter em mente que a realidade nem sempre é formada pela verdade, e que as histórias mentirosas carregam grande carga de veracidade.

E isso é muito legal.

Sabrina Câmara, treinadora profissional no Shamian Tennis Courts

“Bissauians in China”, livro do fotógrafo português José João Silva, 40, é uma sucessão de dribles.

Organizado como fichas de um casting de atores testando seus personagens, a obra de ficção se traveste de realidade por todos os lados para criar um universo que, embora tenha pontos de contato com o mundo real dos guineenses e suas influências chinesas, só poderia existir na cabeça de alguém que tem a ideia de, no futuro, fazer um remake de Blade Runner na Nigéria.

Durante 4 meses, José e Patrícia Guerreiro, artista plástica portuguesa que coordena a direção de arte do livro, construíram fichas de personagens e coletaram objetos em Lisboa que pudessem ser aplicados nos “atores” locais, em Bissau.

Assim, por 10 dias e quase mil fotografias, João e a artista plástica desembarcaram na África para convocar, explicar o projeto e pôr em prática o cenário chinês idealizado. Nada dos 4 meses cravados nas primeiras páginas da publicação.

“Todos foram extremamente simpáticos e aceitaram facilmente a ideia, por mais absurda que fosse. Se fizesse o mesmo em Lisboa, perderia muito tempo respondendo o porquê daquilo tudo. O porquê foi uma questão que não existiu por lá”, explica José.

O funcionário do Instituto de Estatística, João Gomes Júnior, avisa: “Há 8000 guineenses em Guangzhou, metade dos quais têm excelentes condições de vida”. Acreditou?

Hochimi. Líder do grupo de crime organizado Dai Lo

Todas as legendas do livro são mentiras, apesar da verdade infiltrada nos lugares escolhidos.

Um dos personagens caminha em frente a Ópera de Guangzhou, projeto da premiada arquiteta Zaha Hadid. Existe? Existe, mas em Bissau ela é um pouco diferente. Dessa forma, combinando aspectos verossímeis e outros muito absurdos, o português cria um interessante jogo de cena na cabeça do leitor.

Por que não Tânia Pereira, uma cantora que atingiu o sucesso em 2010 interpretando músicas de Sade na China? Ou então Clara Nidji, futura aluna da Escola de Enfermagem, clicada em frente a um prédio com gigantescos caracteres chineses, na verdade um liceu chinês?

Além deste liceu, muitas obras em Guiné-Bissau foram construídas por empreiteiras chinesas, o que facilitou o trabalho do fotógrafo, já que marcas e inscrições em chinês ficaram pelos edifícios.

Para compensar algumas outras dificuldades cenográficas, os elementos levados pelos artistas davam conta do recado. “Existe um retrato em que uma menina usa uma camiseta com um ideograma chinês, e ele significa ‘mentira'”, diverte-se o fotógrafo. É uma brincadeira sofisticada.

Todos os objetos levados até a África também estão registrados no livro, que ainda acompanha um diário do projeto e um texto de Raquel Monteiro, portuguesa que vive na Guiné-Bissau a três anos e relata a sensação de se estabelecer por lá.

Depois de lançar o livro em Lisboa, Tóquio e Los Angeles, José João Silva traz o livro para o Brasil. Seu lançamento será hoje (29), na Livraria Cultura, em São Paulo, às 19h.

Mariama Sane interpreta Zhora. Atriz de grande sucesso na África do Sul. Vive em Guangzhou desde 2009

Grande oportunidade para deixar ser enganado pelo português. Assim como essa metade do Entretempos, que na primeira leitura do livro, realmente acreditou que “Pu Cau, conceituado diretor chinês, está trabalhando atualmente no projeto do remake de ‘Blade Runner’, com um orçamento de 200 milhões de yuans”.

Não é formidável se fosse real?

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