Espaços vazios, cheios de lembranças

Por DAIGO OLIVA

“…Assim, a casa não vive somente o dia-a-dia, no fio de uma história, na narrativa de nossa história.

Pelos sonhos, as diversas moradas de nossa vida se interpenetram e guardam os tesouros dos dias antigos.

Quando, na nova casa, voltam as lembranças das antigas moradias, viajamos até o país da Infância Imóvel, imóvel como o Imemorial.

Vivemos fixações, fixações de felicidade. Reconfortamo-nos revivendo lembranças de proteção. Alguma coisa fechada deve guardar as lembranças deixando-lhes seus valores de imagens.

As lembranças do mundo exterior nunca terão a mesma tonalidade das lembranças da casa…

Evocando as lembranças da casa, acrescentamos valores de sonho; nunca somos verdadeiros historiadores, somos sempre um pouco poetas e nossa emoção traduz apenas, quem sabe, a poesia perdida”.

– Gaston Bachelard, em “A poética do espaço”

Izarra Boarding School, escola para crianças da elite basca durante os anos 80

Sinais do passado estão por todas as partes.

Porém, a medida em que evoluímos, a quantidade de lembranças imateriais vão sobrepondo nossos antigos dispositivos de recordação. Os álbuns de fotografias de família, aqueles de papel, já não existem mais, assim como cartas, postais e até fitas k7, substituídas erroneamente por coletâneas alocadas em algum lugar numa nuvem.

O fotógrafo espanhol José Javier Serrano, mais conhecido como Yosigo, registrou espaços que, embora vazios, guardam nos escombros alguma forma de recuperar tempos passados. Os vidros quebrados de casas agora inabitadas ainda carregam passos deixados para trás em paredes rabiscadas ou azulejos intactos.

Não é só a marca humana passional de antigos moradores que se encontram ali, mas também a especulação imobiliária e a falência de instituições.

“De alguma forma, há uma atração visual por esses espaços. O passar do tempo implica um nível de sentimentos e emoções. O silêncio que existe ali é muito característico, um silêncio um tanto quanto perturbador”, explica o fotógrafo.

Antiga fábrica de tabaco de San Sebastián

Forçando paralelos, o trabalho de Yosigo tem ligações com o fotógrafo canadense radicado nos EUA, Robert Polidori.

Famoso pelas imagens de casas abandonadas após o furação Katrina, as fotografias se encaixam em resultados visuais similares, mas com origens completamente diferentes. A obra de Polidori é baseada na ação de uma catástrofe natural que modificou as casas de milhares de pessoas instantaneamente.

Yosigo se interessa pelos lugares abandonados, deixados para trás por mudanças que se consolidam ao largo do tempo e se projetam em transformações lentas, que ainda vão acontecer.

“Todos os espaços que fotografei já não existem mais. São espaços que podem dar um pouco de medo e é sempre melhor ter uma boa companhia por perto, te faz se sentir mais seguro”.

Lecaroz, colégio dos frades Capuchinhos, fundada no século XIX

Os espaços da antiga tabacaria de San Sebastián permanecem quase intactos, “como se alguém tivesse dado a ordem para deixar o local e ninguém tivesse levado mais de um minuto para sair dela”, diz o espanhol

O portfolio de Yosigo ainda apresenta um interessante contraste. Ao lado dos espaços abandonados, uma série de lugares temáticos é inundada por pessoas em áreas de lazer, massificadas e que podem, na verdade, representar o momento anterior ao abandono.

“Não me vejo refletido nas fotografias desses espaços vazios. O resultado pode parecer melancólico, nostálgico e algo triste. Eu, ao contrário, me considero uma pessoa bastante alegre e positiva”.

Ufa.

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