Míope, uma opção

Por DAIGO OLIVA

O MIS, Museu da Imagem e do Som de São Paulo, inaugura nesta quinta (21) a primeira mostra dos selecionados da Convocatória Nova Fotografia 2013.

“A Neve, O Sal, A Chuva”, trabalho da artista Nati Canto, 30, abre a parte expositiva do projeto, que ainda contará com Francesco Di Tillo, Jonas Tucci, Jorge Sato, Luiz Maximiano e Rafael M. Milani.

Esta é a segunda edição do programa, que no ano passado abrigou fotógrafos como Flávia Junqueira e Gordana Manic, em busca de nomes promissores dentro da fotografia.

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A partir do estudo do oftalmologista Robert Kaplan, Canto desenvolveu a série de dez imagens em que compreende a miopia como questão comportamental. Mais do que puramente biológico, o “defeito” óptico pode ser uma metáfora da personalidade, em que a falta de exercícios do olhar atrofia a visão.

Nosso comportamento está cada vez mais míope. Enquanto o homem precisava caçar, ele sofria de hipermetropia, tinha dificuldades para enxergar de perto. Com o mercantilismo, a visão foi sendo modificada e as relações de troca foram se tornando mais próximas. Hoje estamos num nível exagerado dessa miopia“, explica a artista.

As imagens, captadas em três regiões com climas completamente diferentes se unem através do branco estourado das captações superexpostas.

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Santos, no litoral paulista, o salar de Uyuni, na Bolívia e Harbin, no norte da China, são “achatadas” geograficamente ao serem dominadas pelo branco quase cego da série.

É curioso que Canto tenha, talvez inconscientemente, planificado lugares tão heterogêneos a partir da necessidade de não “ver igual”.

A visão particular nas imagens é construída a partir do aparato fotográfico.

Unindo uma câmera digital com traquitanas que possibilitaram o ajuste de uma lente para equipamentos de médio formato e um desentupidor de pia, o resultado gráfico do foco seletivo, mas não completamente cravado, pode se assemelhar a lentes já fabricadas com esse propósito.

É claro que já conhecia as objetivas que tem um resultado similar, mas a ideia não era comprar óculos para minha câmera. Eu queria fazer um olho!”, protesta a fotógrafa.

A gente precisa de óculos mesmo? Quem disse que quem vê com desfoque está vendo ‘errado’? Os óculos não são uma forma de fazer todo mundo ‘ver igual’?”, continua.

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“A Neve” é uma interessante série que faz da câmera uma extensão do olho. Muito além da frase clichê preferido dos deslumbrados com fotografia.

É como colocar os olhos no divã.

Contei para o meu oftalmologista sobre essa história e ele foi tentar entender. Depois de quase dois anos sem voltar lá, fiquei contente em saber que lembrava de mim, do meu ponto de vista e disse que nunca ia me operar dos olhos. Nem que eu quisesse“, respira aliviada.

Vai lá:

MIS – Museu da Imagem e do Som
QUANDO 22/2 a 7/4 (ter. a sex., das 12 às 22h; sáb, domingos e feriados, das 11 às 21h)
ABERTURA 21 de fev, às 19h
ONDE Avenida Europa, 158, Jardim Europa
QUANTO grátis