Luz sobre a política

Por DAIGO OLIVA

Já faz um tempo que o Entretempos busca encontrar uma forma de reunir trabalhos visualmente interessantes e com vocação política.

Em meio a um território que oscila entre a crítica ingênua e o formalismo intelectualóide que pouco comunica, há fantásticas exceções.

Por meio de André Mesquita, pesquisador de arte política e ativismo, uma das metades do Entretempos conheceu obras e manifestos que, para além de museus e galerias, demonstram que a arte não precisa se enquandrar dentro do status quo do mercado para ser validada.

Pelo contrário, só existem fora dessa lógica padronizante, confrontando e criando novas reflexões sobre a forma como produzimos.

O ativismo político e as manifestações artísticas merecem mais espaço no blog daqui para frente. Começamos com uma postagem sobre o “Overpass Light Brigade”, coletivo americano que criou uma bonita forma de protestar.

A partir de painéis de led, frases e palavras gigantes se formam em meio a noite, como neons gigantes que flutuam.

Ali, é a mensagem que prevalece.

Aqui, André Mesquita escreve.

Obrigado!
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Luz sobre a política

Milhares de pessoas saíram às ruas no Estado de Wisconsin, em fevereiro de 2011, contra os cortes orçamentários executados pelo governador republicano Scott Walker e suas manobras para limitar negociações trabalhistas de funcionários públicos e sindicatos.

As artistas Lane Hall e Lisa Moline convidaram um grupo de pessoas para uma intervenção em apoio aos manifestantes, onde os participantes levariam um pequeno painel de led com uma letra.

Em um viaduto, o grupo montou uma linha usando cada uma das letras para formar a palavra “RECALL”, aludindo ao referendo para revogar o mandato de Walker.

Overpass Light Brigade (OLB) é um projeto que alia a efetividade dos slogans políticos presentes nas manifestações com a possibilidade de gerar novas situações de colaboração e ocupação de todos os espaços possíveis, desde a performance produzida nas ruas aos registros fotográficos circulando na imprensa e nas redes sociais.

Se nos anos oitenta Jenny Holzer instalava painéis luminosos dentro de museus e lugares de grande circulação pública para veicular truísmos como “A alienação produz excêntricos ou revolucionários”, desestabilizando normas e signos convencionais e convidando-nos à reflexão, a iniciativa de Hall e Moline amplia o uso dessas estratégias discursivas do campo da arte para uma prática de ação coletiva.

Durante a noite, o OLB lança suas mensagens para dar visibilidade a demandas sociais de base, como o protesto realizado em dezembro de 2012 em solidariedade à histórica greve dos funcionários do Walmart.

Na frente de um dos supermercados da rede, a frase “RESPEITE OS TRABALHADORES” brilhava sobre a paisagem e confrontava os símbolos comerciais.

Uma frase em um muro, em um cartaz ou formada com a força da cooperação de um grupo consegue atingir uma escala de mobilização internacional, mostrando que ideias como o OLB podem ser executadas por outras pessoas que acreditam que um protesto é também uma prática criativa.

André Mesquita é pesquisador das relações entre arte, política e ativismo. É autor do livro “Insurgências Poéticas: Arte Ativista e Ação Coletiva”, além de ser um dos curadores da exposição “Perder a Forma Humana”, no museu Reina Sofia, em Madri.

Para saber mais sobre o Overpass Light Brigade é só clicar aqui.