Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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O espelho das meninas americanas

Por DAIGO OLIVA

Na última quarta feira, durante o São Paulo Fashion Week, o estilista Fause Haten inovou.

Construiu uma passarela em miniatura, cheia de pedaços geométricos de espelhos, e, usando bonecas/modelos controladas por titereiros, apresentou sua coleção.

O desfile chamou a atenção e comentários sobre a inovação, mas é difícil ficar apenas nisso.

Embora provavelmente não tenha sido a intenção do estilista, não relacionar modelos como bonecas manipuladas chega a soar como desprezo intencional.

Afinal, como reagiu uma modelo ao saber que seria substituída por uma boneca no estilo Barbie?

Irônico…

Ao fotografar meninas e suas bonecas personalizadas, o ensaio “American Girls”, da polonesa Ilona Szwarc, é a ideia de possuir um avatar real no mundo físico.

Criada em 1986, a linha de bonecas “American Girl” tinha a intenção de educar através de uma mini companheira. Junto a livros, os brinquedos representavam figuras da história americana e abordavam temas complexos como trabalho infantil, racismo e pobreza.

Tudo de forma compreensível para a criançada.

Porém, após mudanças para torná-las mais contemporâneas, as bonecas viraram uma espécie de espelho infantil. Agora, quem compra o brinquedo pode customizar roupas, cabelo, cor dos olhos e da pele.

A mudança no conceito das bonecas está a par de um mundo onde recém-adolescentes pensam o tempo todo em sua auto-imagem.

A fotógrafa, que hoje vive em Nova York, atravessou os EUA por dois anos atrás de meninas que fossem obcecadas pelas bonecas.

As opções na construção da mini-imagem das jovens meninas relevam que quanto maior a possibilidade de escolha, maior a probabilidade do o que está faltando se destacar.

Assim como os números de censo indicam a divisão da população pela cor da pele, as bonecas funcionam como um dispositivo que mostra como as meninas gostariam de ser, ou ainda, como se enxergam. Diferenças de padrões de beleza, sociais e raciais explodem.

“Pedi para que minhas modelos não sorrissem, pois elas revelam mais quando estão sérias. Minha intenção foi a de criar obras de arte, e não fotografias de familía com suas bonecas. Ou ainda que parecessem publicidade, fotos artificiais”, disse a fotógrafa ao jornal Daily Mail.

O bonito trabalho da polonesa rendeu à fotografa uma tonelada de prêmios. Entre outros reconhecimentos, “American Girls” ficou em terceiro lugar da categoria de retratos do World Press Photo 2013 e foi o grande ganhador do PDNedu Contest entre os trabalhos de FineArt.

Merecido.

Para ver mais sobre “American Girls” e Ilona Szwarc é só clicar aqui.

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