O caos de João Castilho

Por DAIGO OLIVA

Estreou no último sábado (23), na Zipper Galeria, “Caos-Mundo”, exposição do mineiro João Castilho.

Negro, pesado, pessimista, as imagens desse novo trabalho de Castilho são conjuntos de tensões presentes no enfrentamento do mundo à beira de um colapso.

Conversamos com o fotógrafo por email, e você confere o rápido bate-papo abaixo.
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Caos-Mundo

Os cinco trabalhos da exposição se costuram pelo conceito de caos-mundo de Édouard Glissant.

Fala do choque, do entrelaçamento, das repulsões, das atrações, das conivências, das oposições, dos conflitos entre as culturas dos povos no mundo contemporâneo.

São trabalhos mais pesados, próximos dos que tenho feito de dois anos pra cá, como “Morte Súbita”. “Caos-mundo” vai nessa direção e as catástrofes as quais me refiro são menos naturais que humanas.

A arte é uma resposta essencial a nossa realidade e essa realidade tem se mostrado mais dura.

Caos conjuntos

1. Erupção

“Erupção” é uma videoinstalação que parte de imagens reais, feitas pelo povo na rua, com seus celulares, na duração do acontecimento. O que me interessa nesse trabalho é ambiguidade do ato de queimar um ônibus ou um carro.

Pode ser tanto um ato terrorista quanto um ato legítimo de reivindicação, a linha é tênue.

Mas não me interessa simplesmente deslocar os vídeos de uma espaço para o outro. É preciso que eu também atue sobre eles. Por isso faço um trabalho demorado de edição e sincronização.

Acima, foto da série “Vade Retro”. Abaixo, o políptico “Retirante”

2. Retirante, Vade Retro e Abismo

O políptico “Retirante” também é mais direto, mostrando todas aqueles sinais de errância e de desterro gravados no chão.

Já a série “Vade Retro”, opera por outras vias. São imagens construídas, todas as cenas foram feitas por mim antes de serem fotografadas. É um trabalho que fala do homem fraturado, híbrido.

No outro vídeo, chamado “Abismo”, vemos uma pequena embarcação tripulada por homens negros. Pensamos nas embarcações que saem do norte da África para o sul da Europa, das embarcações que deixam Cuba em direção a Flórida e nas centenas de embarcações que deixaram a África rumo às Américas.

É um pequeno fragmento de uma história maior. Tudo está lá e ao mesmo tempo nada está, é a obra mais aberta, junto com os tuneis de “A errância”, “O exílio”.

Blocos cromáticos

É verdade que o [trabalho anterior] “Hotel Tropical” tem muita cor, mas se você reparar bem, ele opera em blocos. E cada bloco trabalha basicamente com monocromos isolados.

Isso acaba com qualquer clima de festividade que poderia haver se as cores estivessem misturadas.

“Hotel Tropical” é um trabalho sobre fracassos e impossibilidades, mas também sobre resistência. Nessa nova exposição há vários trabalhos em preto e branco, mas há vários coloridos também.

Acima, duas imagens de “Hotel Tropical”. Abaixo, fotografia da série “Vade Retro”

Nova Iorque e depois

Minha carreira tem sido fazer trabalhos de arte que estejam em sintonia comigo, com a realidade em torno de mim e que sejam mais que um comentário a isso tudo.

Acho que um trabalho de arte que interessa tem que ser um trabalho em ato, uma espécie de ataque.

Na exposição em Nova Iorque, que se chamou “Disruption”, mostrei duas obras mais antigas.

O “Lote Vago” é uma fotoinstalação com retratos de pessoas desempregadas no Mali e parte da série “Tempero”, onde trabalhei com intervenções na paisagem boliviana, além do lançamento do meu último livro “Pulsão Escópica”.

Para frente, há um novo livro em andamento que deve sair dentro de dois meses.

Por enquanto é isso.
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Caos-Mundo
Zipper Galeria
Rua Estados Unidos, 1494 – Jardins – São Paulo/SP
Até 20 de abril
Segunda a sexta, das 10h às 19h, sábado das 11h às 17h
Grátis