50 mil negativos no lixo

Por DAIGO OLIVA

Cortázar, Borges e Gabriel García Márquez. Todos perdidos. Ao menos no acervo do fotógrafo argentino Daniel Mordzinski, 53.

Conhecido por retratar célebres nomes da literatura latino-americana, o fotógrafo calcula que 50 mil negativos e slides de seu arquivo desapareceram do prédio do jornal francês “Le Monde”, por razões ainda desconhecidas.

O material estava guardado há dez anos em uma sala cedida aos correspondentes do diário espanhol “El País”, em Paris, onde vive o fotógrafo. A coleção foi supostamente jogada no lixo por funcionários do “Le Monde” em uma mudança no escritório francês.

“Apenas se salvaram centenas de fotos que uma vez digitalizei para a publicação em livros ou exposições, o resto desapareceu para sempre”, escreveu o fotógrafo por meio de uma nota em seu site oficial.

José Saramago em retrato de Mordzinski

Segundo Miguel Mora, representante do “El País” na França, ao saber do ocorrido, foi informado pela chefe de serviços gerais do “Le Monde” de que existia uma necessidade urgente para desocupar o espaço.

Como não havia nenhum acordo de uso firmado entre os dois jornais e os dados de contato do correspondente espanhol não constavam no “Le Monde”, o arquivo foi retirado, levando junto todo o acervo do argentino.

Posteriormente, o arquivo, pintado de preto pelo próprio argentino, acabou sendo encontrado, mas as fotografias armazenadas não estavam mais ali.
Em nota, o “Le Monde” lamentou o episódio, pediu desculpas e se colocou à disposição para identificar as causas que levaram ao sumiço do acervo.

No entanto, condenou as acusações do fotógrafo argentino de que o jornal havia destruído o material de forma voluntária e lembrou que “Mordzinski decidiu depositar seus arquivos na sede do jornal sem avisar a ninguém da equipe do ‘Le Monde'”, além de “promover uma campanha de difamação sistemática, especialmente por meio das redes sociais”.

A atriz e escritora espanhola Elvira Lindo

Questionado pela Folha por e-mail sobre a existência de um acordo formal para a utilização do espaço e se haveria a possibilidade de providências judiciais, Mordzinski não quis comentar o assunto.

“Juro que não tenho forças para falar, para me sentar para escrever, para lembrar ou pensar em tudo que perdi. O pouco que disse me causou muita dor. Não quero dar entrevistas ou ‘tirar proveito’ do caso. Busco levar esse assunto com a mesma elegância que sempre busquei viver”, respondeu por e-mail.

Resta a esperança de que, assim como aconteceu com Charles Cushman, fotógrafo americano de Chicago cujos negativos foram achados em latas de lixo, todo o acervo de Daniel Mordzinski possa ser reencontrado.

Com ou sem explicação.