O tempo é a lembrança de algo que passou

Por DAIGO OLIVA

Toda segunda-feira o Entretempos publica a seção “De dentro”.

A partir de uma imagem é possível relembrar uma memória, uma história, um fragmento da vida.

Num mundo onde o não fotografar e o não fotografado inexistem, cada referência visual se conecta automaticamente a uma lembrança cotidiana.

Mas… E se um dia, ao acordar, você olhasse um retrato ao lado da cabeceira e nada daquilo lhe parecesse familiar? Nenhum sentimento, nenhuma saudade, nenhuma reação?

Edwin Honig em “Primo de Segundo Grau”, documentário exibido no “É Tudo Verdade” deste ano. O crédito da foto é Divulgação

Durante cinco anos, o cineasta americano Alan Berliner acompanhou a vida de seu primo Edwin Honig, dono de um currículo intelectual invejável.

Poeta, tradutor de obras de Cervantes e Fernando Pessoa para o inglês, Honig lecionou em Harvard e foi o criador do programa de escrita criativa da Brown University. Resumindo: uma cabeça acelerada, inquieta, ativa.

Porém, a vida segue seu fluxo de non-sense organizado e Edwin adoece. Diante de todas as tristes possibilidades que poderiam atingi-lo, o poeta foi pego pelo mal de Alzheimer.

Desnecessário relatar as consequências em sua vida. Uma doença que acaba com as conexões de um homem dependente de sua mente com o próprio passado é nada menos que irônico.

O documentário “Primo de Segundo Grau”, exibido na última edição do festival “É Tudo Verdade”, tenta reconstruir a memória de uma vida desaparecida.

Como escrever o perfil de alguém que já não sabe mais nada sobre sua própria história?

Alan Berliner é habilidoso. Juntou pequenos pedaços da vida do primo, lhe mostrou fotografias, contou casos e, paralelamente, conversou com pessoas que fizeram parte de sua vida.

“Sei que há um passado e sei que vivi”. O próprio poeta respira momentos de lucidez.

Inconstantemente, Edwin vai reagindo aos estímulos. É claro que o poeta não recupera a memória, mas é genial perceber que algumas conexões neurais ainda parecem preservadas, num lugar muito profundo dentro de si.

Frases soltas, reflexões metafóricas e sua ligação com a música e o pequeno filho de Berliner revelam um lirismo que ainda não se esvaziou por completo. Há um poeta escondido ali.

“Primo de Segundo Grau” se traveste de um filme biográfico para ser uma reflexão sobre memória e seus truques.

Truques que se alimentam de ironia sobre ironia. Por mais estranho que pareça, o Alzheimer tem sua porção de alívio ao esquecer a conturbada e afastada relação de Honig com os filhos e a culpa que carrega pela perda do irmão.

Não há culpa, não há dor.

São as contradições de uma vida que pode ser deixada para trás de uma hora para outra.

E com ela, seus pesares.

A obra de Alan Berliner é um lembrete inesquecível sobre a vida.

O documentário foi produzido pela HBO e ainda não tem data de lançamento no mercado, muito menos no cine Torrent. Resta torcer e esperar. No momento, Alan Berliner viaja pelo mundo divulgando o filme por festivais e colecionando prêmios. Merecidamente.