Não há heróis

Por DAIGO OLIVA

Passei os últimos 3 dias me perguntando: O que pode ser pior? Levar um fora da namorada ou se decepcionar com um herói da adolescência?

Hoje, perto dos 30 anos, casado e esperando um filho -muito longe da ideia de terminar um relacionamento-, não tenho dúvidas: ser escorraçado pelo seu fotógrafo preferido dos 17 anos é absurdamente pior.

É como levar uma surra moral.

No começo desta semana, tentei entrevistar Glen E.Friedman.

Para quem não o conhece, Friedman documentou de perto a revolução de pelo menos três movimentos culturais. O nascimento e a explosão de bandas seminais do punk americano -Black Flag, Suicidal Tendencies, Minor Threat e, posteriormente, o Fugazi-, a agressividade dos skatistas de Dogtown e, um pouco mais a frente, os grupos de rap que definiram a década de 80.

De Public Enemy a Run-DMC, todos confiaram no olhar de um branco para marcar as imagens definitivas de suas carreiras. Isso sem contar seu relacionamento eterno com os Beastie Boys.

Você pode nem saber quem foi o fotógrafo Glen E. Friedman, mas é certo que, através de suas imagens, milhares de pessoas foram convidadas a ouvir o que esses movimentos contraculturais tinham a dizer.

A postura faça-você-mesmo das bandas punks também foi crucial em sua vida. Aos 20 anos, o fotógrafo lançou “My Rules”, fotozine punk com imagens que produzia na época, tônica que veio a ser ainda maior quando Friedman fundou a Burning Flags, sua própria editora. Não há sequer um livro seu que não tenha sido lançado de outra maneira senão de forma independente.

Mais do que música ou estética, gente como Ian Mackaye, Heny Rollins e Friedman ensinavam ao mundo que era possível viver fora de grandes instituições e/ou corporações.

O que não quer dizer que esses sejam os caras mais legais do mundo, calma lá.

Friedman respondeu todas as perguntas que enviei. Tentei questionar menos sobre fotografia e mais sobre sua visão do mundo. Queria que o fotógrafo falasse sobre mídia independente, as bombas em Boston, como ele vê o relacionamento entre as bandas de hoje com política e, claro, um pouco sobre seu próprio trabalho.

Recebi respostas que não tinham mais do que duas linhas e sempre num tom genérico. “Não vejo as bandas de hoje”, “a mídia independente é o melhor lugar para as notícias, isso é óbvio”, “não penso muito sobre bombas e terroristas”, “esse livro é apenas o exemplo perfeito da minha estética fotográfica e ideal”.

Para qualquer um que acompanha o blog do fotógrafo, sabe que ele tem muito mais a dizer do que essas poucas palavras.

Que seja uma percepção de mágoa de caboclo, mas o tom em suas frases era de descaso e desinteresse. Por que responder a uma entrevista que não está a fim?

É verdade que nunca saberemos quem de verdade é uma pessoa por uma simples e rápida entrevista. Ainda mais por email.

Estava num mau dia? O humor realmente não é seu forte? A má vontade prospera por aqueles cantos? Ou era apenas fome? Vai saber.

Mas há uma coisa que aprendi dez anos atrás com Glen E. Friedman e que, agora, ele mesmo me relembrou. Assim como o título de seu primeiro livro, “Fuck You Heroes”, não existem heróis, nem deslumbres, nem idealizações.

Alguns heróis da adolescência precisam ser como amores platônicos. Devem ficar lá, à distância.

Segue a vida.

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