Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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De Dentro #22

Por DAIGO OLIVA

O De Dentro dessa semana é do jornalista da Folha Chico Felitti.

A morte ganha do amor. E ganha bonito, estilo Boca versus Corinthians da semana passada. É tudo o que essa foto revela. Foi o que aprendi, a mil pés de altura, olhando a África de cima e o medo bem de baixo.

A imagem abstrata é um retrato do lago Manyara, no coração da Tanzânia, que Ernest Hemingway disse ser o mais lindo da África. Não que eu tenha reparado. Foi um dia que eu não vi nada além do meu fim. (Spoiler: ele não vem com retrospectiva dos pontos altos da vida nem usando a máscara com o rosto do seu grande amor).

Mais instruções e informações antes de decolar. Lá estava eu, num país sem McDonald’s, para encontrar Christian Cravo, meio dinamarquês, meio baiano e 100% filho de Mario Cravo Neto no talento. É o autor do retrato.

Christian estava na sua décima alguma coisa visita ao primeiro continente. Queria fazer um livro sobre a natureza selvagem recortado pela sua íris com a lente da câmera. Mais do que um National Geographic, estava lá para imprimir um Personal Geographic. E eu fui designado para contar como era um trabalho que envolvia dormir em acampamentos com diárias de US$ 1.000, jipes para savana com direito a frigobar lotado de cerveja, guias particulares e famílias de alemães entendiados em meio à selvageria.

Lindo, como o Hemingway diz que é o lago. Não houvesse um pedágio: chegar na reserva envolvia um trecho aéreo num avião pequeno. Pequeno mesmo. Quase do tamanho de um fusca. Não soa tão ruim, né? Facilitaria saber que aeronaves têm três apelidos na minha cabeça. Um é Morte com asas. O segundo é Suicídio de 400 e Poucos. O terceiro você que imagine.

Uma relação de carinho, a nossa. Mas é preciso fingir ser normal nessa vida. Ainda mais quando se está a trabalho e numa pista de terra batida de onde decolam aviões na cidade de Aruja.

A pista era minúscula. Proporção biquíni de carioca. O teco-teco parecia ainda menor. Mas era grande o suficiente para cabermos eu, o fotógrafo, seu amigo barra guia holandês e Babu, o piloto que tinha uma caveira com dois fêmures cruzados na camiseta.

Era espaçoso o suficiente até para levar um tonel de gasolina como quinto passageiro, sentadinho no banco ao meu lado. Ainda mais se retirassem a porta e a gente voasse levando vento na cara, como de fato foi feito.

O pesadelo seria ainda mais qualificado se o piloto oferecesse o leme do avião para um holandês com poucos minutos de voo. E se sentasse, relaxadão, com as mãos atrás da cabeça enquanto a vida de quatro pessoas (e de um barril de gasolina) ficassem por duas hélices. Tire os verbos do condicional, essa era a realidade.

É doce morrer no ar, cantarolava um senso de humor negro no fundo da situação. “Que tesão!”, gritava o Cravo enquanto dava à luz a umas fotos lindas que entrariam pro livro. Procriar definitivamente não era uma das minhas punções ali no alto.

A certeza me dizia: era a última imagem que eu ia ver. Podia escolher entre o lago com mais flamingos que um filme de Walt Disney, o piloto que era a cara do Mister T ou a cara do algoz, um holandês branquelo que tinha aprendido a pilotar avião só por observância.

O mesmo senso de obrigação que leva turistas ao Louvre me ditou: olha para onde tá todo o mundo (piloto e “piloto”, inclusive) olhando. E fiquei encarando o lago Manyara como se aquela imagem pudesse me salvar. Não me salvou. Nem pensar que o amor me esperava de volta na terra. Nada salva. Eu olhei pra cara da morte, e ela só parecia com o lago Manyara.

Deu que meia hora depois o avião pousou numa picada no meio da reserva para safáris. E eu saí vivo, querendo abraçar leões e ignorando de propósito que haveria um voo de volta. Olho para o lago da foto hoje e repito: não foi o que eu vi. Por isso que, desde esse dia, digo que fotografia é emprestar olho alheio para ver. E pelas retinas eu agradeço, Cravo. Mas pelo voo não.

Chico Felitti é repórter da revista sãopaulo, da Folha. Escreveu para o jornal “O Estado de S. Paulo” e para as revistas “SET” e “Galileu”. Também edita o blog Digo Sim, sobre casamentos.

Toda segunda, o Entretempos apresenta a seção De Dentro –uma pessoa elege uma imagem importante em sua vida (uma fotografia, um quadro, uma capa de disco, um postal, o que vier a cabeça) para assim, relembrar memórias e sensações ou relatar o porquê daquela figura ser tão fundamental.

Confira outros: Vivian Whiteman, Zé Vicente, Juca Kfouri, Thais Gouveia, Peri Pane, Isabelle Moreira Lima, o pintinho, Filipe Redondo, Eduardo Leme, Renata Simões, Cassiana Der Haroutiounian, Juliana Freire, Daigo Oliva, Lulina, Daniel Klajmic, Mônica Maia, Nazareno Rodrigues, Beto Brant, Manuel da Costa Pinto, Marcos Augusto Gonçalves e Cassiano Elek Machado.

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