Fora do passo – Kyoto

Por DAIGO OLIVA

Lembra que na semana passada a gente inaugurou uma nova seção do blog chamada “Fora do Passo”?

A primeira postagem foi sobre dicas de espaços culturais em Istambul que não se encontram facilmente pelos guias de viagem.

A ideia é que tanto as metades do Entretempos quanto convidados, amigos e leitores do blog possam colaborar indicando não só galerias, museus e afins, como as impressões que guardaram dessas cidades.

Ilana Lichtenstein está vivendo em Kyoto (ou Quioto, como ela charmosamente coloca em seu Facebook), no Japão, desde o segundo bimestre desse ano e é de lá que nos manda notícias.

Fotógrafa, nos escreveu esse fantástico relato sobre a região e mandou algumas fotos que vem produzindo por lá.

“Há duas fotos que nunca mostrei, que para mim representam um pouco da busca que está no texto. Também é um início de retratos bem do rosto, uma coisa que vim buscar aqui”.

Lendo o relato, o que dá para entender é que as belezas de Kyoto estão, sobretudo, na natureza.

Obrigado, Ilana!!

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A rua onde eu moro não tem nome.

No Japão, os carteiros é que sabem ler onde estão as nossas casas, como neste endereço que além de um codigo só me diz: na região do parque Okazaki, perto do templo Shinnyodo.

Desde que eu vim para cá pela primeira vez, dois anos atrás, vidrei em como, para lhe ensinar um endereço, toda pessoa faz uma descrição visual, um mapa, um desenho.

É preciso notar a grande placa vermelha do restaurante, e então um discreto templo de madeira, buscar a lâmpada cor de rosa forte que significa uma estação de polícia, para assim ir virando, conhecendo, vendo: lembrando.

Há as ruas médias e as passagens pequeninas, mínimas, mesmo em Tóquio. E por isso não adianta relevar a explicação e dizer-se “virarei na 2a. à direita”.

Quando se deixa as avenidas, é preciso construir uma memória visual para conhecer o próprio caminho.

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Da primeira vez que eu vim para Kyoto, não conheci Kyoto.

O albergue em que me hospedei era lindo, uma casa antiga toda na madeira de que são feitas as tantas casas e templos (o Taro Cafe Inn), mas à primeira vista a cidade parecia ruidosa, muito ocupada pelas línguas dos tantos turistas que pareciam estar em todo lugar.

Todos estavam à procura dos nomes. Kinkaku-ji, Ginkaku-ji, Kiyomizudera, Fushimi.

São lugares grandiosos, que enchem os olhos de vermelho e dourado, mas sempre tão cheios e fui conhecer Kurama.

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Kurama é uma das montanhas para lá do norte da cidade, a uma hora de trem daqui.

Uma trilha no mato liga a estação do pé do monte ao outro lado. Um teleférico também poderia entregar já na atração principal do centro da montanha, Kurama Dera.

Mas o gosto de chegar assim, a um estrondoso templo budista, com as muitas cores e detalhes guardados num ambiente escuro que não se pode fotografar, é outro.

Andando, esse templo se faz um a mais entre os outros, pequenos e lindos, xintoístas, que também há no mesmo caminho.

E o caminho tem seu final no onsen, ofurô termal, água quente ao ar livre, no meio da floresta, vendo o céu passar até anoitecer.

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Não se tem, no entanto, de ir sempre a Kurama para viver esse silêncio.

O rio Kamo é largo, limpo, tranquilo, e na verdade mesmo selvagem, quando os falcões em rasante roubam nossa comida.

O rio leva ao norte da cidade.

E o norte, onde vivemos, é sempre vazio. Nele, há muito daquilo que parece estar uma camada antes, guardado e secreto: pois adentrando as montanhas que rodeiam a cidade ao Norte, a Leste e a Oeste, e se desenham até a metade de todo esse horizonte, existem as construções que se tornaram imagens como a de um trilho de trem que termina no meio da água.

Para encontrá-las, no entanto, tem-se sempre de tentar olhar o que não se anuncia. Um constante exercício dos olhos abertos.

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O festival internacional Kyotographie, que teve sua primeira edição entre 13 de abril e 06 de maio, ocupou a cidade com fotografias em alguns espaços, desses bons de se conhecer.

Para chegar no Kodaiji Tacchu Entokuin, por exemplo, o pequeno templo onde havia a exposição do mestre Eikoh Hosoe, passava-se pela avenida mais movimentada de todas, com trânsito de pedestres e milhões de suvenirs, para logo, seguindo em detalhe o mapa ilustrado do festival, virar apenas uma e outra esquina desse bairro dito Gion e de repente alcançar um lugar em que os eixos não se parece com ruas.

Como num filme. Vazio. Todo o chão de grandes pedras. Nenhum anúncio, nenhum objeto de agora. Vazio porque ali não há nada. Só tecidos nas portas, casas muito antigas, a sensação de estar dentro de alguma coisa, uma certa privacidade daquilo que é discreto.

Uma dessas entradas era o templo. E dentro dele, as imagens da série Kamaitachi eram impressões imensas, ocupando inteiramente as três portas deslizantes de uma sala; as de Ordeal by Roses estavam dispostas como longos pergaminhos abertos, e as de Man and Woman sobre pedestais como os feitos para kimonos, de cedro, ferro e pedra.

Ali também não se podia fotografar, e era preciso tirar os sapatos e fazer o percurso todo com os pés descalços. Os dois jardins do templo, criados para a contemplação, se tornavam um pouco para as fotos como a espécie de “paisagem emprestada”, como os japoneses dizem ser a floresta que se vê ao fundo, quando se constrói um jardim.

Kyoto é muito feita de suas matérias. Madeira, pedra, plantas – e esse ‘nada’, pelo qual vale a pena atravessar o mundo.

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