Marsilac e os mapas do entendimento

Por DAIGO OLIVA

Marsilac se parece mais com um lugar imaginário do que um espaço territorial.

Sabemos de sua existência, mas é praticamente impossível conhecer alguém que indique, em poucos segundos, onde está a localização do bairro no mapa de São Paulo.

Assim são as fronteiras, mesmo dentro da nossa própria cidade.

A 60 quilômetros do centro, Marsilac é um bairro desconhecido, onde nem o bonequinho do street view nos mostra seus arredores. O carro do Google ainda não passou por lá.

Para o paulistano que circula pelo perímetro de Pinheiros-Jardins-Centro-Rua Augusta, até a definição de que Marsilac é um lugar pode parecer estranho.

“É possível que nos últimos 30 anos tenha havido uma homogeneização do espaço urbano, com bairros distantes ficando cada vez mais parecidos, mas ainda há lugares com traços únicos em São Paulo, e Marsilac é um deles”, explica o fotógrafo paulista Gabo Morales, 29.

“É o maior e o menos populoso distrito de São Paulo. Hoje, no entanto, devido ao fato que é um lugar com clima de cidade pequena, pouco desenvolvido, Marsilac se parece muito mais com o começo do que o fim de São Paulo”, continua.

Gabo, que colabora frequentemente para a Folha e para o blog, vem visitando Marsilac há um ano e meio para o projeto que leva o mesmo nome do bairro.

Acima, antena de internet a rádio em Marsilac. Abaixo, as fronteiras do distrito.

Ao lado da Serra do Mar, coberto por reservas da Mata Atlântica, a área é uma lacuna entre a preservação e o desenvolvimento da cidade, misturando pequenas partes urbanas situadas em torno de um cinturão verde.

No entanto, as descrições físicas parecem muito pouco para entender o que significa Marsilac.

Durante o projeto documental, Gabo Morales vem realizando uma aproximação a partir de pequenas histórias, retratos e pedaços de Marsilac, traçando um perfil lento sobre o espaço e seus moradores.

O fotógrafo mantém um diário em que registra os encontros com desconhecidos, além de apontar algumas reflexões sobre o processo.

“Em geral, os retratos não duram mais do que cinco minutos e boa parte desse tempo passo conversando com as pessoas, faço perguntas sobre o dia-a-dia delas no bairro, sobre o relacionamento com o lugar onde vivem e as perspectivas em relação ao futuro da região.

Tenho o nome, a idade e a profissão de todo mundo, porque acho importante apresentar essas pessoas como indivíduos, não como arquétipos, tipo-sociais ou seja la o que for. Tem nome e sobrenome e são agentes ativos do espaço onde eles vivem”.

Abaixo, Elvis Teodoro Junior com sua bíblia.

Mais do que o registro, é interessante acompanhar o processo de “Marsilac”.

Como no desenho de um círculo, conhecer suas bordas para se aproximar do centro torna o entendimento mais completo, muito diferente da abordagem que vai direto ao seu centro, deixando toda uma área importante de fora.

O contraste, a distância e todas as particularidades desse bairro ainda demorarão muito para serem entendidas.

“Justamente por conta da aparente tensão entre preservar e desenvolver o distrito, existe ali uma oportunidade de documentar em tempo-real o que vai acontecer com uma área imensa da periferia de São Paulo nos próximos cinco, dez anos”, finaliza.

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