Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Os 50 fotógrafos mais influentes da década

Por DAIGO OLIVA

A revista americana Complex publicou em sua versão online uma lista com os 50 fotógrafos mais influentes da última década.

Listas são desnecessárias, mas divertidas.

Por trás de pequenas polêmicas, deslizes e alguns nomes que nada influenciaram a fotografia no período, a publicação conseguiu reunir ótimos nomes. A lista é boa.

Acima, a cantora MIA em retrato de Ryan McGinley.

Artistas elencados no ranking como Ryan McGinley, Gregory Crewdson, Jon Rafman, Alec Soth e Cindy Sherman, de fato estiveram no centro de discussões sobre a fotografia produzida no período.

Mais do que criar imagens, estes fotógrafos também foram responsáveis por incitar reflexões de como criar imagens. A influência e maneirismos repetidos através destes autores é gigantesca.

A lista inclui também artistas não humanos. Entre os 5 fotógrafos do topo estão as equipes do telescópio espacial Hubble e do Curiosity, o carrinho da NASA em Marte.

Na década em que câmeras de segurança e aparatos eletrônicos estão espalhados por todos os cantos, nada mais natural do que reconhecer que são as máquinas os maiores “exploradores” de lugares desconhecidos e os fotógrafos 24h por dia de tudo aquilo que acontece no mundo.

Acima, foto de Jon Rafman registra tela do Google Street View. Abaixo, uma das câmeras do Curiosity, da NASA. O robôzinho já fez até autoretrato.

O momento decisivo morreu? Certamente não, mas parece não ter a grande relevância de épocas passadas. Há muito pouco de fotojornalismo e fotografia documental na lista.

Entre a primeira metade dos escolhidos está uma cena de desespero do massacre em Newtown, nos EUA. A foto, de Jessica Hill, é incrível, não resta dúvidas, mas quanto dessa maneira de produzir fotojornalismo influenciou a fotografia na última década?

Quase nada. É praticamente um fluxo contínuo do que já havia sendo feito. Se o fotojornalismo não pode -e não deve- ser ignorado, há outros inúmeros trabalhos e fotógrafos que poderiam ocupar este espaço. De Tim Hetherington a Pep Bonet.

A Complex peca também por ignorar nomes imprescindíveis da fotografia contemporânea como Viviane Sassen, Christian Patterson e Wolfgang Tillmans.

Mas a lista não ignora o fenômeno pop de Terry Richardson, Scott Schuman -o Sartorialist- e o francês JR. De blogs a movimentos sociais, os três nomes serão sempre lembrados na forma de produzir editoriais de moda, retratos de rua conjugado com o compartilhamento via internet e a explosão visual em manifestações pelo mundo.

Abaixo, uma das imagens de JR. O francês retrata comunidades para recoloca-las no mapa.

Mas, afinal, quem é o fotógrafo mais influente dos últimos dez anos?

Ai Weiwei.

O artista, ativista, provocador, perseguido e símbolo de resistência ao governo chinês, Ai Weiwei.

O maior mérito da Complex é colocar no topo de sua lista um artista que não é um fotógrafo por definição, mas que se utiliza da fotografia como instrumento de expressão.

Os últimos dez anos da fotografia, principalmente a fotografia contemporânea, tiveram em seu cerne a ideia de que o discurso está acima da forma. Embora Weiwei trabalhe de forma visualmente forte em lindos trabalhos como “Fairytale” e “Dropping a Han Dynasty Urn”, o que importa em suas obras, mais do que a experiência visual, é o que ela tem a dizer.

Na exposição individual promovida pelo MIS, em São Paulo, era possível perceber que o trabalho de Weiwei é inundado por um sem fim de imagens de seu cotidiano, de sua vida virtual e amigos.

Mesmo no período em que o chinês viveu nos EUA, a forma de documentar sua intimidade já estava completamente ligada com o que produzia artisticamente.

Da década de 80 para hoje, talvez a intenção de Weiwei tenha mudado. Registrar a si mesmo e as pessoas a sua volta num contexto de perseguição resignificou seu trabalho.

Em um país carregado de restrições virtuais como a China, postar uma foto no Facebook, no Twitter ou um vídeo no Youtube significa estar vivo e resistindo.

O que isso difere da maneira como muitos estão fazendo em seu dia a dia? Que seja por outras intenções, principalmente a exposição virtual constante e a necessidade de autopromoção sem precedentes, o processo é o mesmo.

E, por isso, Ai Weiwei é o fotógrafo mais influente da última década.

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