Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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O onipresente Eder Chiodetto

Por DAIGO OLIVA

Quem acompanha as exposições de fotografia pelo Brasil certamente já encontrou o nome de Eder Chiodetto em catálogos e/ou cartazes.

Crítico e pesquisador, Eder foi também editor de fotografia da Folha durante dois anos (2002-2004). Quando se pensa em curadoria de exposições na área, é praticamente impossível dissociar sua presença.

É fato que há curadores especializados na área espalhados pelo Brasil, mas o Entretempos quis entender o porquê da onipresença de Eder Chiodetto em tantas exposições.

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Foto: Cia de Foto

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Entretempos – Seu nome é constante na curadoria de exposições de fotografia no Brasil. Faltam mais curadores da área no país?

Eder Chiodetto – De fato, quando comecei a realizar curadorias, em 2004, a fotografia no Brasil ainda estava se firmando no circuito de arte contemporânea. Penso eu, havia a necessidade de pessoas pesquisando e expondo de forma mais contínua a fotografia que, ao mesmo tempo, apresentava novas potências e características em função dessa entrada no circuito de arte contemporânea, mas também pela forma como ela foi sacudida pelas novas tecnologias dando respostas muito interessantes que findaram por deixá-la, no meu ponto de vista, muito mais instigante e polissêmica do que já era. Bem, nesses últimos 10 anos essa conjuntura se expandiu e a fotografia passou a ser domínio de muitos outros curadores que trabalham com arte em geral, e não com a fotografia em particular. Isso é ótimo porque cada vez mais a fotografia sai dos seus tradicionais guetos e ganha espaços interdisciplinares e menos dogmáticos. Mas a verdade é que ela segue tendo especificidades que ainda justificam ter pesquisadores e curadores voltados apenas a ela. Não é a toa que há poucos anos a Tate Modern criou o cargo de curador de fotografia e colocou o Simon Baker na função.

Entretempos – Há novos nomes?

EC – Vejo novos e bons curadores aparecendo no circuito, mas de fato, não há um grande interesse mais específico por parte deles no estudo exclusivo da fotografia. Eu sigo acreditando que ainda é preciso pensar os desdobramentos todos pelos quais a fotografia tem passado com a sua mega popularização, as faturas entre realidade e ficção, a crise pela qual passa o fotojornalismo e a forma como o fotodocumentarismo tem se renovado ao incorporar a narrativa mais dialética e sensorial em pauta, a força que a fotografia vernacular tem mostrado em projetos de artistas, etc… Para mim segue sendo um campo inesgotável e extremamente excitante para refletir e realizar projetos.

ET – Você ainda faz parte do conselho consultivo do MAM-SP? Em que pé está a fotografia dentro do acervo do museu? Existe algum plano de mostra que revele um panorama desse acervo, como foi feito com a coleção do Itaú?

EC – Não integro mais o conselho consultivo do MAM-SP, mas sigo a frente do Clube de Colecionadores de Fotografia do museu (desde 2006). A fotografia no acervo do MAM-SP passou a ter uma presença forte desde a época em que Tadeu Chiarelli foi seu curador. De lá para cá ela tem crescido, seja por meio do Clube de Colecionadores, pelas aquisições ou ainda pelas doações que sempre passam pelo crivo do Conselho Consultivo.
Está previsto para que eu faça uma nova mostra de fotografias do acervo em abril do ano que vem, na sala Paulo Figueiredo, ficando em exposição no período da Copa do Mundo. Mas ainda não comecei a fazer o estudo do recorte.

ET – Você fez parte do júri do último prêmio da Foam. Você pode falar um pouco sobre a escolha de Nico Krebs e Onorato? O que as experimentações da dupla representam pro momento atual da fotografia contemporânea?

EC – O Paul Huf Award é um prêmio para quem trabalha com fotografia até o limite de 35 anos de idade e tenha no escopo de suas pesquisas obras que ajudem na reflexão sobre o desenvolvimento da linguagem. A dupla de artistas suiços Onorato e Krebs possui um trabalho muito instigante no qual eles descontroem todo o mecanismo da fotografia para depois reconstrui-las de forma muito poética, irônica e com muito humor. A luz, a perspectiva, a cópia fotográfica e a própria câmera são meticulosamente estudados e decompostos para depois ganharem novas feições e possibilidades de exploração narrativa e poética. Um frescor no cenário…

ET – Como enxerga a fotografia contemporânea brasileira produzida por jovens artistas? Existem trabalhos de fôlego, originais, que estão olhando para frente e não apenas repetindo influências externas e maneirismos?

EC – Sempre há de tudo… o trabalho dos pesquisadores é justamente o de garimpar preciosidades em meio a turbulência natural causada por referências e citações em excesso, modismos e tal. E acho que sim, a fotografia brasileira caminha bem. Temos excelentes autores jovens, originais e com uma produção coesa, construída entre auto referências e uma percepção bem apropriada do nosso tempo. A lista seria extensa, mas posso citar alguns que têm me empolgado: Alexandre Sequeira, Sofia Borges, Gordana Manic, Mariana Tassinari, Leticia Ramos, Breno Rotatori, Rodrigo Braga, Fernanda Rappa, Fabio Messias, Ricardo Barcellos, Sheila Oliveira, Julia Kater, Berna Reale e muitos outros. É óbvio que quando falamos em fotografia contemporânea estamos pensado-a num campo expandido, onde muitos desses autores transitam.

ET – Fotografia é um meio muito corporativista. Você crê que o público em geral enxerga fotografia como uma prática que se relaciona com outros meios, suportes ou até formações acadêmicas?

EC – Felizmente o corporativismo existente entre os fotógrafos não se expande para o público, pelo que percebo. O público em geral já está bastante familiarizado com a fotografia no circuito de arte, no jornal, na revista de moda, nas redes sociais e vai assim aprendendo a lidar com as diferentes modulações de seus discursos.
O corporativismo ainda resiste muito em alguns grupos de fotógrafos que ficam entricheirados em suas certezas analógicas e perdem o compasso da história num momento em que a fotografia está cada vez mais disponível a todos e se mostrando uma linguagem elástica, com capacidade para incorporar contradições e permanecer como um símbolo que desliza entre definições estanques.

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