Os desconhecidos moradores do Mar Negro

Por DAIGO OLIVA

“Na Romênia é preciso evitar os cães vadios. Eles têm raiva e atacam o pescoço das pessoas (…) Na Bulgária, há criminosos disfarçados de policiais em todos os lugares. E o seu carro vai ser roubado da mesma maneira (…) Nas repúblicas do Cáucaso há apenas os Mujahedines e agentes da KGB, que se matam mutuamente (…) Na Moldávia, ouvi que alguns mafiosos se colocam no meio da estrada, se fingem de mortos e quando você tenta ajudá-los, eles colocam uma pistola na sua têmpora e te roubam”.

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Calma. Estes são apenas alguns dos clichês que os romenos Petrut Calinescu e Stefan Candea contabilizaram antes de iniciar o projeto “Around the Black Sea”. Enquanto um fotografa, o outro escreve.

Durante quatro meses, a dupla percorreu mais de 11 países a fim de investigar as similaridades e diferenças das nações que abraçam o Mar Negro. Foram 13 mil quilômetros para construir um retrato da região que vá além de pré-conceitos e histórias fantasiosas.

“Há 3 anos, quando decidi fazer a viagem e dei uma olhada no mapa, fiquei surpreso ao ver alguns países que antes não tinha certeza se existiam e onde eles estão.

Há um sentimento geral que todos esses lugares são perigosos, mas as pessoas temem principalmente porque não sabem o que esperar de lá”, explica Calinescu, o fotógrafo, por e-mail.

A sensação de perigo está cristalizada não apenas para quem olha a região de fora, mas também entre os próprios habitantes em torno do Mar Negro. Segundo o romeno, toda vez em que se aproximava de uma nova fronteira, um ritual se repetia.

Para quem estava se despedindo, o conselho era ser cuidadoso com os prováveis riscos e ameaças do território vizinho. Para quem o encontrava pela primeira vez, a curiosidade era saber o quão ruim era o país anterior.

É como se os moradores locais vivessem em bolhas incomunicáveis.

Mas foi justamente a hospitalidade da região que espantou Calinescu. Em 2010, ao sair da Turquia e atravessar a fronteira da Geórgia, a dupla acabou por chegar em Gali, uma sombria cidade comunista que foi palco da curta guerra entre a Geórgia e a Rússia em 2008.

Tarde da noite, os romenos foram a um restaurante para comer algo e depois descansar. “Ao nosso lado, havia apenas uma mesa e um cara muito grande, que posteriormente se apresentou como um membro do exército. Ele estava fazendo uma série de brindes e encantamentos seguidos por um movimento rápido que esvaziava seu copo de vodka.

A mesa tinha bebida e comida suficiente para uma festa de casamento inteira. Outras três pessoas próximas seguiam suas “ordens” respeitosamente e, calmamente, bebiam e comiam ao seu comando.

Perguntaram nossos nomes e nos convidaram para integrar a mesa, mas negamos, sem saber o que esperar. Quando nos preparamos para sair, escutamos o som de um soco na mesa e um grito com meu nome: “Peeetre!”

Não havia para onde escapar. Nós aceitamos o convite, seguimos seus encantamentos e consumimos o que havia na mesa…”, lembra o fotógrafo.

Durante toda a jornada, a dupla manteve um blog, onde contam casos e perfis de personagens que encontraram pela viagem, mas a experiência não deve se repetir. Embora a ideia possa ajudar quem quer conhecer a região, Calinescu não é um grande entusiasta da caixa de comentários.

Entre reclamações por imagens que não mostravam museus e igrejas, o fotógrafo ainda teve que aguentar discussões intermináveis sobre a grafia correta do nome de uma cidade. “De uma cidade que tem pelo menos cinco formas diferentes de ser escrita”, argumenta.

Se há ao menos 5 diferentes grafias para um nome de uma mesma cidade, a fotografia no leste europeu parece ter uma unidade. Seja no visual kitsch do interior de casas, restaurantes e estampas hiper coloridas, até cenas excêntricas em que os personagens aparentam viver na maior normalidade possível, vários trabalhos ambientados nos países da Europa Oriental se comunicam.

É assim nos belos trabalhos de Rob Hornstra e seus karaokês ou nos retratos de Donald Weber e os interrogatórios ucranianos.

“A Europa Oriental é cinza mesmo em imagens coloridas. As pessoas não sorriem frequentemente, especialmente nas grandes cidades -elas estão governadas por preocupações. Porém, você também pode encontrar aqui extravagantes resorts e restaurantes parecidos com qualquer outra parte do mundo, ou ainda melhores.

A região está mudando rápido. É difícil documentá-la de forma totalmente objetiva -você tem que escolher uma realidade a partir das múltiplas que existem”.

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As duas metades do Entretempos são os curadores convidados do blog oficial do festival de fotografia Paraty em Foco 2013.

Durante o evento e o período que antecede sua realização, toda vez que você visitar nossa página e visualizar a vinheta acima, já sabe que quem fala aqui não é apenas o Entretempos, mas também os curadores do blog do festival.

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