A FotoBienalMasp é sobre fotografia!

Por DAIGO OLIVA

Alguns dos visitantes da primeira edição da FotoBienal no Masp podem ficar confusos.

Logo ao sair do elevador, no segundo andar do museu, há uma sequência de trabalhos que são formados por vídeos e instalações. Poucas são as “fotografias” no início da mostra.

Quem espera encontrar uma montanha de imagens enquadradas de modo tradicional estranhará, mas é justamente esse o maior mérito da mostra.

As câmaras escuras travestidas de pesados arquivos físicos de Rochelle Costi e a interação do canal Motoboy -que espalhados por São Paulo atualizam em tempo real um interessante retrato da cidade- são apenas alguns dos trabalhos apresentados através de vídeos, objetos e outros artifícios que não os papéis fotográficos largamente conhecidos.

“Tombo”, de Rochelle Costi. Olhos mágicos embutidos em arquivo fotográficos para simular a experiência de câmaras escuras

Dessa forma, é natural que entre os 35 selecionados para a mostra exista a presença forte de artistas que não se autodenominam fotógrafos, mas que escolheram o suporte como um meio de expressão.

Dificilmente alguém irá classificar Marina Abramović, Cinthia Marcelle, Oscar Munoz ou Odires Mlászho -todos na FotoBienal- primariamente como fotógrafos, embora todos eles tenham suas carreiras ligadas à fotografia.

O mais importante é perceber que a curadoria teve a capacidade de mostrar em larga escala que o suporte fotográfico está profundamente imerso dentro da arte contemporânea e em constante intercâmbio com outras maneiras de produção artística.

“O discípulo praticante” e “A Herdeira”, foto-performances de Cinthia Marcelle

A percepção dessas relações pode ser velha, anacrônica e ultrapassada, mas num meio tão corporativista como a fotografia, carregado de romantismos ingênuos e maneirismos sem fim, o esforço é válido.

O trabalho do chileno Alfredo Jaar sobre a veracidade e o uso das imagens divulgadas por governos, é um ótimo exemplo desta ideia.

Em “May 1, 2011”, o artista provoca a reflexão da foto divulgada por Obama no dia em que Bin Laden supostamente foi capturado, e morto, pelo exército americano.

O chileno coloca lado a lado a imagem da cúpula da Casa Branca reunida para a transmissão das evidências da morte do inimigo e uma tela completamente em branco.

“May 1, 2011”, do chilena Alfredo Jaar. Bin Laden foi morto, mas Obama não quis divulgar a foto de seu corpo. O trabalho investiga a forma política que os governos utilizam ao divulgar imagens estratégicas e como as consumimos

O contraste principal está na quebra da tradição política e cultural de exibir publicamente o adversário de guerra morto. Obama praticamente pede para que os dias do “ver para crer”, de provas imagéticas, acabem.

A obra de Jaar se dispõe a investigar a forma como produzimos e consumimos fotografia. E isso importa muito mais do que uma imagem de forte violência gráfica.

Além do segundo andar, a FotoBienal também ocupa o mezanino do Masp com obras de Pedro Motta, Gordana Manic, Ivan Grilo e outros ótimos nomes da nova leva contemporânea, como a surpreendente obra do coletivo Garapa.

Parte do ensaio do coletivo Garapa, que narra a história de um holandês que quer recuperar a história de seu pai, morto na tragédia do edifício Joelma

No entanto, essa interpretação da mostra não representa sua totalidade. Há também outros excelentes trabalhos que funcionam diretamente ligados ao conceito mais tradicional de registro fotográfico, o que não representa demérito algum.

Demérito é se limitar a um pensamento rígido que não se abre a outros tipos de apropriações do que é fazer fotografia.

Tudo pode funcionar de maneira fluida e conjunta.

E assim vai.

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