Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Moda de portões fechados

Por DAIGO OLIVA

Uma mensagem no Painel do Leitor da Folha de hoje é interessantíssima.

A leitora Sylvia Manzano escreveu sobre a recente polêmica em torno da decisão da ministra Marta Suplicy, que autorizou a captação de recursos via Lei Rouanet para desfiles de moda.

“Nunca assisti a um desfile de moda ao vivo, só pela televisão ou pela internet, mas foi o suficiente para chamar àquilo de arte, sim, pois são quadros vivos, que se movimentam, que têm um conceito e uma beleza transcendental.

Desfiles brasileiros são de tirar o fôlego às vezes, e os de Paris e Milão têm a dimensão de uma pintura. Eu penso que moda é cultura, sim, moda é arte, e é claro que a Lei Rouanet deve permitir que estilistas financiem seus desfiles”.

A tal polêmica recai sobre os projetos dos estilistas Pedro Lourenço, Alexandre Herchcovitch e Ronaldo Fraga, que juntos, poderão captar R$ 7,4 milhões para seus próximos desfiles.

O projeto de Lourenço prevê apresentações em Paris.

Para encurtar o caminho de um assunto muito explorado, todo o debate pode ser lido clicando aqui e aqui.

A opinião da leitora é comum a de muita gente, mas o mais interessante é a primeira frase. “Nunca assisti a um desfile de moda ao vivo, só pela televisão ou pela internet…”.

Muitos que concordam com Manzano talvez nunca poderão acompanhar a um desfile de perto, pelo simples fato de que não há ingressos para este tipo de exibição.

Todos aqueles que estão ali foram convidados pela marca ou pela organização da semana de moda.

Uma produtora que trabalha para os desfiles de um conhecido estilista brasileiro, e não quis se identificar, confirmou: o acesso é limitado por convites a clientes, convidados da marca e a imprensa, todos eles distribuídos na plateia por ordem de interesse.

Clientes, claro, estarão mais próximos a passarela.

Quando são as marcas gastando o próprio capital em seus projetos é como uma festa privada. Convida quem quer, vai quem quer, assiste quem quer.

Quando o dinheiro público está presente, a coisa muda de figura.

Como explicar então esse tipo de cultura restrito apenas a um seleto grupo? Se moda é cultura popular, é cultura para ser vista por quem?

A captação de dinheiro via Lei Rouanet por grandes empresas que financiam espetáculos com ingressos a preços impraticáveis é constantemente questionada na imprensa. Ainda assim, o contribuinte com menos recursos pode fazer a economia necessária para conseguir comprar o acesso ao show, musical ou performance que for.

Moda é cultura, sim. A leitora tem razão. Reflete comportamentos, recicla temas e personagens históricos para serem reinterpretados de outras formas -os projetos apresentados por Lourenço e Fraga, por exemplo, tratam de assuntos relacionados a cultura brasileira como Carmem Miranda, Mário de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Mesmo assim, é difícil entender que cultura é essa que grande parte da população só pode acompanhar pela televisão ou pela internet, enquanto apenas uma pequena parte pode ver de perto.

Os desfiles de moda são verdadeiros espetáculos visuais, mas são excludentes em sua natureza. O mundo da moda está centrado na exclusividade de estar num lugar onde nem todos podem estar.

Que tal se esses desfiles de moda financiados pelo contribuinte fossem abertos para o público via compra de ingressos?

Ou melhor, que o desfile via Lei Rouanet possua exibições gratuitas em diversos lugares?

De preferência no Brasil, e não em Paris.

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Nas duas imagens desta postagem, a megalomania do estilista alemão Karl Lagerfeld. Moda é ou não é um espetáculo visual?

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