Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Ahn?

Por DAIGO OLIVA

Imagine que você está sentado numa mesa de bar com amigos e um deles diz ter uma história incrível para contar.

O caso começa, tem fôlego, até é interessante, mas ao final, a sensação geral é de…

“Ok, vamos para a próxima cerveja”.

Acontece com frequência. Bons motes para trabalhos fotográficos são difíceis de encontrar.

Requer tempo e reflexão.

Por vezes, uma boa ideia é despejada rapidamente, sem estabelecer conexões importantes para sua própria evolução e acaba-se por esvaziar.

Em outros casos, maneirismos comuns presentes em discursos fotográficos aparecem para mascarar ideias ruins ou justificar grupos de imagens bonitas, porém aleatórias, sem rumo.

Por trás dos rodeios de palavras pomposas e vagas escondem-se projetos que não sabem muito bem para onde vão.

Se, ao final de um texto explicativo, o leitor está confuso sobre o que é o trabalho e apenas tem a impressão que o autor é muito inteligente, alguma coisa está errada aí.

Imagem de “Paloma al aire”, do espanhol Ricardo Cases. Ficção e realidade se misturam com muito humor e uma ótima história estruturada

Um dos clichês mais comuns da fotografia contemporânea, e que veio a se tornar uma ferramenta fácil de argumentação, é a (velha) fronteira tênue entre realidade e ficção.

Como cercar autores que se defendem atrás da justificativa de que seu trabalho se passa dentro de um sonho? Se estamos no terreno do onírico, tudo pode acontecer?

O vago, o irreal, o movimento rápido dos olhos que não deixa entender muito bem se aquilo realmente existiu ou não, permite de fato um vale tudo?

O sonho, por si só, não é suficiente para se estabelecer como vetor de inspiração de um trabalho sem estrutura ou história. Esses elementos são necessários mesmo onde a lógica parece inexistir.

Em um espaço tão aberto a possibilidades como este, é natural que exista um caminhão de autores que navegue de forma faulosa por histórias fantásticas, ao mesmo tempo em que flertam com a realidade. Não é sobre esses que falamos.

Saber transitar nos limites entre ficção e realidade com um discurso bem fundamentado é completamente diferente daqueles que se apoiam em textos vagos para justificar a leitura aberta e frouxa. Falam sem necessariamente dizer alguma coisa.

Fotografia presente no livro “Bissauians in China”

“Bissauians in China”, livro do fotógrafo português José João Silva, por exemplo, é uma obra que mostra como este recurso pode ser bem utilizado.

Organizado como fichas de um casting de atores testando seus personagens, a obra se traveste de realidade para criar um universo ficcional.

João retratou a vida de dezenas de homens e mulheres de Guiné-Bissau, ricos e pobres, bem ou mal-sucedidos, como se fossem africanos vivendo na China. O detalhe é que o fotógrafo fez tudo isso em Guiné-Bissau, levando elementos da vida chinesa para o país.

Toda a obra é lida como uma grande mentira, de personagens inventados e documentados de forma realista.

Um discurso deve ser forte o suficiente para estabelecer conexões secundárias sem perder seu esqueleto principal e, ainda, captar a atenção do interlocutor mesmo sem mostrar as imagens que dali nasceram.

As palavras precisam sim, explicar as intenções do autor. Mesmo que com arabescos e rococós, o leitor precisa captar as palavras do fotógrafo e encontrar nas imagens o seu correspondente. Assim como o contrário.

A capacidade de comentar, justificar, descrever seu trabalho é tão essencial para ele quanto o conjunto de imagens nele contidas. E a coerência necessária para estabelecer uma base “teórica”, um objetivo estético e discursivo, e segui-los a risca ao longo do projeto é normalmente o que separa um bom trabalho de um outro ruim.

Não faz mal a ninguém. Ok, vamos para a próxima cerveja.

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