Eu contra eu

Por DAIGO OLIVA

Antes de começar a mesa que abriu o terceiro dia do Paraty em Foco, o mediador Eder Chiodetto fez uma importante contextualização.

Ao menos três dos quatro participantes do debate “Futuro do Presente” haviam nascido entre os anos de 1987 e 1988, época de fim da ditadura militar no Brasil, reabertura democrática e, ao longo dos anos 90, estabilidade econômica.

Assim, os jovens desta época nasceram sob o signo do acesso facilitado a livros e materiais fotográficos estrangeiros, seja fisicamente, por conta da moeda fortalecida, ou pela internet, através de blogs e tantos outros caminhos disponíveis.

Foi natural que a preocupação local política das décadas passadas tenha sido substituída por um discurso mais subjetivo, universal e, principalmente, introspectivo.

Na conversa de hoje pela manhã, numa Paraty ensolarada e calorenta pela primeira vez no festival, os dois primeiros artistas que apresentaram seus portfolios carregam justamente esta característica em seus trabalhos.

O coletivo Pangeia de Dois e a paulistana Jessica Mangaba mostraram ensaios que abordam relações amorosas e familiares.

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O primeiro, num discurso pouco articulado e vago, contou a experiência do blog que originou o elo, onde a dupla viajou ao México para uma residência artística e passou a relatar de maneira jornalística as experiências no país.

Segundo os artistas, quando falavam menos dos deliciosos tacos mexicanos e mais da volta que davam pelo quarteirão da cidade, a audiência do blog era muito mais receptiva e interessada.

Por que não passar a falar das experiências que viviam ali ao invés de mais um guia de turismo? A atitude tem muito a ver com o verniz exibicionista da última década, marcada pelas redes sociais como via maior de interação.

Já falamos outras vezes sobre a linha tênue que divide o universo das fotografias sobre vida pessoal entre o fantástico e o completamente desinteressante.

E é no contato ao vivo com os artistas que é possível enxergar em alta definição quem ocupa cada lugar dessa linha. Os cartões-postais-poesia do “Pangeia” são bonitos e etéreos, mas parecem muito mais uma reunião de recortes aleatórios onde o sentido do trabalho é dado após a sua produção.

Se na primeira mesa do festival a espanhola Cristina de Middel falou sobre a importância de saber previamente que imagem o fotógrafo quer buscar, o resultado do coletivo e o discurso pouco afinado para explicar as decisões de cada trabalho tem um resultado decepcionante.

Em alguns momentos, a impressão é que eles mesmos não haviam parado para pensar sobre o que produzem. Uma pena, pois é inegável o talento da dupla para fazer imagens bonitas e sensíveis.

No outro lado, Jessica Mangaba falou sobre as escavações de seus álbuns de família e das relações que produziu a partir das fotos de seu atual, ex, atual namorado, também fotógrafo.

Em “Lapso”, após romper a relação amorosa, Jessica encontrou na subtração de sua figura presente nas fotos do ex, uma forma de amenizar o drama da quebra.

Alguns rasgam fotografias, outros jogam no lixo, mas a artista enxergou na pouca habilidade no Photoshop uma maneira de apagá-la deixando rastros. Em alguns casos, chegou a refotografar as mesmas paisagens, sem que ela, obviamente, aparecesse.

Ela diz que, ao refotografar, havia também uma tentativa de mostrar para o ex que ela podia fazer as mesmas imagens que ele. Vingancinha…

O ensaio possui um esqueleto principal interessante, de onde se pode extrair muitas formas de interpretar fotografia. Resignificar imagens, ampliar ou reduzir a mágoa do fim com uma veia levemente pop.

Ufa.

PEIXE FORA D’ÁGUA

O último participante da mesa foi o também paulistano Guilherme Peters. Se ele mesmo se considera o menos fotógrafo do festival, por ser muito mais ligado a performance, instalação e pintura, o artista fez uma ótima ressalva.

“É interessante notar que, por exemplo, os black blocs, mesmo sem uma câmera na mão, produzem imagens e tem um poder de propagação infinitamente maior do que muitos fotógrafos. Assim como o que aconteceu com as torres gêmeas no 11 de setembro”.

Verdade.

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As duas metades do Entretempos são os curadores convidados do blog oficial do festival de fotografia Paraty em Foco 2013.

Durante o evento e o período que antecede sua realização, toda vez que você visitar nossa página e visualizar a vinheta acima, já sabe que quem fala aqui não é apenas o Entretempos, mas também os curadores do blog do festival.

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