Segundo tempo

Por DAIGO OLIVA

Assim que Gui Mohallem começou a apresentar seu último trabalho na mesa “Estranhamentos íntimos”, em que dialogou com Breno Rotatori, a produção avisou que faltavam 10 minutos para o fim do encontro.

A dupla havia preparado um roteirinho de tópicos que acabou ficando para trás, muito por conta da longa exposição de seus trabalhos, como “Manélud”, de Breno, onde faz uma graciosa parceria de espelho e gerações com sua avó, e “Tcharafna”, uma experiência de busca das raízes libanesas e da identidade de Gui.

Assim, o blog convidou Rotatori e Mohallem para um segundo tempo em um café de Paraty. O papo se alongou um pouquinho, numa deliciosa conversa…

Confira abaixo o diálogo dos fotógrafos, parte 2.

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– Como começam os trabalhos

Gui MohallemO trabalho começa a partir de uma experiência. Quando eu vou pro Líbano, eu nunca sei se o trabalho vai existir ou não. O trabalho vem da vida. É o que eu estou tentando entender… Quando fui pela primeira vez ao Líbano, levei todo equipamento do mundo, mas não tinha obrigação nenhuma de fazer um trabalho na residência. Isso foi fundamental para o trabalho.

Breno Rotatori Comigo tem a relação da experiência também, mas eu começo a pesquisar o que é, por exemplo, o “tempo”, e começo a entender o que é a coisa. A relação do tempo com o homem… A teoria entra na minha cabeça. Dou um passo pra trás e crio um trabalho pra compreender melhor.

BrenoExiste um tempo de compreensão do trabalho. Você produz, começa a ver a imagem e ela vai se tornando mais concreta. Antes ela é só uma ideia, uma possibilidade. Tem muito erro também, né?!

GuiMas a imagem te afeta, né? E você começa a ver que não é só uma ideia, mas sim que aquilo está funcionando.

BrenoQuando se torna mais concreto, você começa a ter uma definição mais clara do conceito. Você começa a dividir com o outro.

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Da experiência solitária até a interferência do outro

GuiNa hora que eu entendo um pouco mais do que eu quero, eu posso mostrar pra você… A imagem fala, né? Você tem o desejo, você tem o problema, você tem as questões, mas daí você também tem o outro.

BrenoQuando o olhar do outro é diferente do que você tinha imaginado, não é frustrante. É bom… O elogio não faz você pensar. Ele tende ao conformismo. Quando a gente pergunta, é claro que dói um pouquinho… Mas já é esperado alguma alfinetada ou alguma coisa assim.

GuiÉ pra isso que você busca e mostra pro outro. Não é pra conformar. Se eu quisesse me conformar, mostrava pra minha mãe, né! Tudo que eu tô fazendo está bonito pra ela. Se você questiona alguém que acha inteligente sobre a opinião do trabalho, isso me ajuda a pensar com a sua inteligência, que é diferente da minha. E aí, a porrada é muito bem-vinda, porque parte do princípio de confiança com aquela pessoa. Você acredita na boa fé do outro.

BrenoUma relação de confiança mesmo, né.

GuiA pessoa está a seu favor. Não está ali por si, está ali por você.

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Diferenças entre público e privado

EntretemposTem trabalhos que são tão introspectivos, tão dentro da sua cabeça, que quando você mostra pro outro, não comunica nada. Vira algo que é só egoísta. Existe isso também, não? Tem trabalhos que fazem muito sentido pro autor, mas quando você põe pra fora, não diz nada.

BrenoConcordo com isso. Todo trabalho tem um conceito. Isso é intrínseco, não tem como ser dividido. Mas quando ele necessita de um discurso do artista pra sobreviver, isso é bem complicado. Daí sim, ele passa a ser egoísta, porque para se relacionar com ele, você precisa da pessoa. Isso é muito complicado…

ETPor exemplo, Breno… Na palestra agora, você mostrou vários trabalhos e o que mais gerou comoção foi o da sua avó, afinal todo mundo tem avó…

BrenoOutro dia conversando com um amigo sobre [Fiódor] Dostoiévski. Ele falou “Dostoiévski é pop”. Ele trata de assuntos populares. Irmão que maltrata irmão, que maltrata irmão, que mata o pai. Porém, trata de assuntos psicológicos, filosóficos, está tudo dentro dessa atmosfera que ele criou. O importante é você conseguir se comunicar, ter um diálogo que, de alguma forma, tem que ser acessível. Não que precise ser um trabalho fácil, mas em algum ponto ele tem que ser acessível. Um trabalho que não se comunica, não existe poética.

GuiNossa, adorei ouvir, adoraria ter falado isso lá… Acho que as pessoas não sabiam o tanto que a gente queria conversar ali…

ETEra quase uma sessão de terapia ali…

GuiNão era terapêutico, era investigativo. Tem esse perigo, né! De saber o quão relevante pode ser um trabalho tão pessoal para outra pessoa. Como que eu sei se é relevante publicar um livro sobre uma experiência tão minha? Como eu sei se isso vai ecoar na outra pessoa? Você tem que pensar muito em quanto você vai dividir com as pessoas. Ficar egoísta e hermético é um risco que você corre quando você faz trabalho a partir de uma experiência.

BrenoEu acho isso muito importante. Essa relação do egoísmo. Geralmente arte pela arte cai nisso. Discutir a arte em cima de outro fundamento de arte. Você fica num universo, que se você não é dele, você vai ficar fora disso. São escolhas, né…

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Referências

BrenoEssa é uma das questões mais importantes que a gente queria falar. Eu acho muito delicado um festival que trata de fotografia, não ser mais aberto, sabe?! Mas eu acho muito sutil… Parece.

GuiMas tá melhorando, né…

ETMas parece que o máximo de aproximação com outro suporte é o vídeo…

BrenoParece uma discussão técnica. Sempre o vídeo e a fotografia estiveram próximos. Claro que teve uma popularização. Mas acho que falta essa aproximação de outras ferramentas. Pintura, cinema… Por que não ter performance, cinema? Eu me pergunto porque se fechar na própria ferramenta? Ao invés de fechar, abre!

GuiQuando eu vi Goya, me alterou, e isso altera o trabalho. Eu fui alterado pela arte e não pela fotografia. A sua experiência é uma interferência anterior. Quando você vê um trabalho, sem se importar com o suporte, te afeta. O que você bebe não importa.

BrenoParece que existe uma culpa quando tem algo que não é fotografia…

ETO próprio Guilherme Peters, no seu debate, já começa seu discurso se justificando por estar em um festival de fotografia…

GuiGeralmente, as pessoas estão interessadas com a lente e a câmera que você usou. Fiquei muito feliz que não aconteceu isso hoje.

BrenoCada vez mais a gente precisa desse hibridismo entre as artes. A gente vive numa época híbrida. Cada vez mais as coisas se misturam. Por que esse segmentarismo?

GuiSe a gente for competir em editais, a gente tem que competir junto com as artes visuais. Por que essa separação? Tem que sofisticar o discurso.

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A morte nos trabalhos

BrenoEu tinha anotado uma coisa pra falar hoje, que podia ficar super brega, então ainda bem que eu esqueci… Ou não. Um texto do [Andrei] Tarkovski que ele está falando sobre a função da arte. Posso ler? “A função específica da arte não é, como comumente se imagina, expor ideias, difundir concepções ou servir de exemplo. O objetivo da arte é preparar uma pessoa para a morte, arar e cultivar sua alma, tornando-a capaz de voltar-se para o bem”. O interessante dessa colocação dele é que a única certeza que temos é que vamos morrer. E pouco se fala disso. E se preparar pra morte, te evita algumas coisas, te evita um despreparo pra esse momento. Quando comecei a perceber que meu avô estava num processo de desligamento, eu também entrei nesse processo de… Não é aceitação, é compreensão. Eu não fiquei triste. Quanto mais se discutir, se falar disso, a gente vai ter mais compreensão sobre esse fato que é tão inexplorado.

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Quando você sabe que um trabalho terminou

GuiEu falei um pouquinho sobre isso, quando falava sobre o “Welcome Home” durante a mesa. Quando eu cheguei lá [no santuário fotografado no livro], entendi que não queria estar mais lá. Tinha uma relação idealizada, e agora tinha uma relação não binária com esse lugar. Tentar sair da idealização. Pensar o horror e a poesia no mesmo lugar, que é a busca do “Tcharafna”, a busca de ir pro Líbano. Agora eu voltei pra lá [Líbano] e não produzi nada, mas eu sei que o trabalho não terminou. Talvez eu já tenha acabado a captação do trabalho, mas falta um tanto de entendimento. E o entendimento, eu não sei se ele acontece só lá ou só aqui. Eu já quero loucamente voltar pra lá [Gui teve que voltar por conta dos conflitos na região, especialmente na Síria]. Então esse trabalho não terminou. Eu até mudei algumas coisas, uma edição do texto, para o trabalho ficar menos egoísta. Mas ele não terminou. Vai chegar uma hora que ele vai acabar… Mas eu sei que essa experiência não acabou ainda. As pessoas tem uma urgência em saber o que o trabalho vai virar. A coisa mais importante que tem pra fazer agora é expor esse trabalho no Líbano.

BrenoAcho que tem várias fases de um trabalho, né?! Tem a parte de acabar imagéticamente um projeto, mas tem a segunda fase que é como vc vai expor esse trabalho. E daí você começa do zero. Qual formato, papel, tamanho, plataformas… Essa investigação começa do zero.

GuiVocê pensa em como isso vai chegar ao outro. O “Welcome Home” só acabou quando publicou o livro. É muito mais divertido do que fazer uma exposição com fotos gigantes. É menor, existe a pausa entre ver uma foto e outra. A pessoa não fica perdida no vislumbre e na beleza do lugar… Levou 5 anos esse processo todo. Pra mim, expor o trabalho durante o processo, é uma nova chance de diálogo.

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As duas metades do Entretempos são os curadores convidados do blog oficial do festival de fotografia Paraty em Foco 2013.

Durante o evento e o período que antecede sua realização, toda vez que você visitar nossa página e visualizar a vinheta acima, já sabe que quem fala aqui não é apenas o Entretempos, mas também os curadores do blog do festival.

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