Não se pode negar as evidências

Por DAIGO OLIVA

“Não é uma guerra entre dois exércitos em que a população civil está sã e salva.

É um conflito no qual o exército sírio está atacando não só os grupos rebeldes, mas também hospitais, escolas e lugares onde mulheres, crianças e idosos buscam refúgio.

Bombardeiam zonas de grande concentração de pessoas sem nenhum tipo de piedade.

Atiradores do regime disparam como se fosse um jogo de dardos. Um menino de 5 anos com um tiro no peito não é uma casualidade.

O atirador teve tempo suficiente para ver quem era a sua vítima.

Nestes dois anos de guerra a situação se complicou muito. Não há dois lados claros que lutam um contra outro, mas um mapa heterogêneo com diferentes grupos e agendas.

No meio de toda esta confusão estão os curdos, que levam mais de 30 anos lutando contra a Síria, Iraque, Turquia e Irã, e também os palestinos, que estão espalhados em diferentes países do Oriente Médio.

Em Damasco, se encontra -ou encontrava-se, pois foi alvo de ataques incessantes-, o campo de refugiados palestinos.

Eles não querem tomar parte nenhuma e, por isso mesmo, são atacados por todos. Então, muitos acabam escolhendo um dos lados. As pessoas precisam sobreviver.

Como vocês percebem, o panorama é complicado.

No meio de tudo, tem gente como eu e você morrendo, perdendo pernas, braços, vendo seus filhos, irmãos e pais morrerem.

Não se pode negar as evidências. Em alguns anos, adotaremos a “mea culpa”, pediremos perdão e sentiremos vergonha.

Entre setembro de 2012 e março deste ano, realizei várias viagens. Em 2009, estive na Síria durante a ditadura vivendo alguns meses no Yarmouk, campo de refugiados palestinos, em Damasco.

Essa experiência me ajudou muito a entender um pouco mais do conflito durante a guerra.

Fui por minha conta, sem nenhuma ajuda de terceiros, mas que, hoje em dia, não recomendo. A situação é perigosa demais. Tem muitos riscos de assassinatos e sequestros.

A coisa mudou muito nesse tempo.

No meu caso, entrar no país não foi um problema, mas trabalhar no Oriente Médio é sempre mais complicado para uma mulher.

Trabalhei bem à vontade, mesmo seguindo algumas regras que não estou de acordo. O fiz por respeito, como usar o Hijab [vestimenta islâmica].

Mas tudo isso foi muito pontual. Me senti bem recebida pelos sírios.

De qualquer forma, me parece mais fácil trabalhar na Síria do que no Egito [imagem abaixo], uma sociedade com um grande problema de perseguição sexual com a mulher.

Alguns temas são mais acessíveis se você é uma mulher e não um homem. Aí é onde marcamos as diferenças.

O mundo é desgraçadamente injusto e patriarcal, mas a mulher não tem nada de sexo frágil. Há mulheres jornalistas incrivelmente fortes e capazes que levam muitos anos mostrando ao mundo o que acontece.

Sobre os prêmios, eles são uma plataforma para esculpir uma reputação.

Às vezes te dão dinheiro, outras é uma questão de prestígio.

O importante é o trabalho diário, não baixar a guarda e seguir produzindo.

O resto é complementar”.

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A fotógrafa espanhola Maysun é a vencedora da categoria “Guerra/Conflito” na última edição do Internacional Photography Awards com o trabalho “Syria. Hell on Earth”.

A pedido do Entretempos, a fotógrafa escreveu um depoimento sobre sua experiência ao documentar a guerra civil na Síria.

Você pode conferir todo o trabalho de Maysun clicando aqui.

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