Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Mídia Ninja fará parte do acervo do MAM-SP

Por DAIGO OLIVA

A partir do ano que vem, o grupo Mídia Ninja, conhecido pelas transmissões em tempo real dos protestos de junho pelo país, fará parte do acervo do MAM, Museu de Arte Moderna de São Paulo.

O trabalho do coletivo foi selecionado por meio do Clube de Colecionadores de Fotografia da instituição. A cada ano, cinco novos nomes são escolhidos pelo crítico e pesquisador Eder Chiodetto para integrar o clube.

Os artistas eleitos são convidados a doar uma obra ao museu, que fica encarregado de produzir 118 cópias da peça escolhida.

Cem delas são distribuídas entre os sócios do clube e outras duas são integradas ao acervo do MAM. A obra do coletivo ainda não foi selecionada.

Para Chiodetto, a inclusão da Mídia Ninja “significa que o museu segue na sua linha de questionar e lançar perguntas sobre o estatuto da fotografia no contexto da arte contemporânea”.

“O Mídia Ninja teve um protagonismo imenso esse ano ao trazer a público um debate sobre a crise da representação dos fatos na imprensa. Mas eles não são artistas, são jornalistas”, completa.

Entre os artistas presentes na coleção do MAM-SP estão Miguel Rio Branco, Alair Gomes, Madalena Schwartz, Claudia Jaguaribe, entre outros.

Ainda segundo o curador, o trabalho selecionado será exposto em abril de 2014.

Confira abaixo o rápido bate-papo com Chiodetto.

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Entretempos – Que trabalho do Mídia Ninja será integrado ao clube? Caso sejam imagens específicas, faz sentido editar o trabalho do grupo, uma vez que eles se destacaram por uma forma contínua e sem edições de captar as imagens?

Eder Chiodetto O que será incorporado ainda será debatido entre eu e o pessoal do Mídia Ninja. Isso ocorrerá no primeiro trimestre de 2014. O clube não tem um formato fechado. Podemos pensar numa seleção de várias fotografias, de um ou mais autores, apenas uma ou até mesmo um vídeo. Um conjunto de fotos e um texto-manifesto, por exemplo, seria algo interessante também. Mas ainda não conversamos sobre isso. O que interessa ao museu é preservar o debate que eles trouxeram à tona e não o modus operandi. É mais ou menos como a performance. Como se guarda uma performance? Por meio de documentação, fotografias, vídeo, relatos, etc.

Entretempos – O Mídia Ninja se destacou com um discurso anti-establishment, anti-grande mídia. A inclusão deles ao acervo do MAM-SP não vai contra esta postura?

Eder Chiodetto Absolutamente não. A não ser que pensemos um museu como um cemitério. Museus não são establishment tampouco grande mídia. Penso na inserção de obras dentro do acervo de um museu com o propósito de desacomodá-lo, de abrir novas frentes de pesquisa, de confronto de ideologias e estéticas, no embate com outras obras. Ao menos no MAM-SP, a curadoria geral sob responsabilidade de Felipe Chaimovich, assim como o conselho consultivo e os curadores dos clubes e a direção, fazem todos os esforços para que o museu seja um espaço vivo e pulsante de reflexão e debate. A mostra do Panorama, com curadoria de Lisette Lagnado, em cartaz agora, é um belo exemplo disso. O museu questionando a sua própria existência.

Entretempos – Qual é a contribuição para a fotografia contemporânea promovida pelo Mídia Ninja?

Eder Chiodetto Nos obrigar a pensar novos modelos, nos tirar da apatia com a qual normalmente vemos as imagens nos noticiários. Colocar uma interrogação onde geralmente gostaríamos tanto de ter uma certeza… Ao tentar, ainda que não se consiga, um novo modelo para a forma de realizar e de por em circulação imagens da nossa história cotidiana. Eles escancaram uma crise de representação a partir da qual quem for atento nunca mais voltará ao ponto de inércia em que estava. É mais ou menos isso que me causa o trabalho da Cindy Sherman, do Andreas Gursky, do Martin Parr, do Caio Reisewitz, da Claudia Andujar, do Miguel Rio Branco… Ah, mas esses são artistas! A chave da arte para mim está, em grande parte, no deslocamento que ela consegue promover nas minhas crenças, na minha sensibilidade. Aliás, a Claudia Andujar sempre foi uma repórter-fotográfica, não? Será ela uma Ninja?

Entretempos – Como funciona o Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM-SP?

Eder Chiodetto A cada ano submeto ao Conselho Consultivo de Artes e ao curador do museu uma lista de fotógrafos ou artistas plásticos que utilizam fotografia em seus processos criativos. Aprovamos cinco nomes, dentro de algumas linhas de pesquisa que criei para dar maior consistência ao acervo e preencher lacunas que ele ainda possui. Cada um desses cinco selecionados são convidados a doar uma obra ao museu. Mas essa escolha é bastante debatida entre eu e o fotógrafo convidado, para que ela seja bem representativa do trabalho dele e dialogue de forma orgânica com o acervo. Escolhida a obra, o museu produz 118 cópias. Cem cópias são para cada um dos cem sócios do clube. Esses sócios pagam uma taxa anual ao museu e recebem cinco trabalhos por ano. Das dezoito cópias restantes, duas são integradas ao acervo do museu, dez ficam com o artista e, das seis restantes, fica uma para cada um dos curadores dos três clubes [do museu, que também possui um grupo dedicado a gravura e outro para design]. Nosso trabalho é voluntário, ganhamos uma assinatura dos clubes como contrapartida. As outras cópias ficam para ações de divulgação. Eles têm como função estimular o colecionismo, angariar fundos para a manutenção do museu e, quando possível, gerar caixa para novas aquisições de obras de arte.

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