Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Por DAIGO OLIVA

Já faz algum tempo que a fotografia se desprendeu de seu caráter documental para buscar o registro de temas puramente abstratos.

Os limites foram tão alargados que, atualmente, há uma grande concentração de trabalhos cujos assuntos estão ligados apenas à compreensão de sensações e sentimentos.

“Desaudio”, livro do paulistano Lucas Lenci, que será lançado no próximo dia 4, está no meio destes dois universos.

As 27 imagens da obra procuram documentar paisagens que traduzam o silêncio.

Na grande maioria das fotografias, predominam paisagens extremamente retas, vazias, envoltas em uma bonita neblina e com pouquíssimas pessoas.

Tóquio, Ilhas Maldivas, Maresias ou Paris são alguns dos lugares fotografados por Lenci e que, de fato, entregam ao leitor a ausência que busca transmitir.

Porém, curiosamente, é justamente nas imagens em que há multidões que o silêncio se impõe.

Há uma agradável inversão quando o barulho contínuo das grandes cidades se torna o som quase imperceptível do cotidiano, e o observador ali não se incomoda mais com o ruído de carros e pessoas ao redor.

Assim como nas paisagens do Rio de Janeiro e de Dubai, a capa de “Desaudio” é um exemplo desta troca.

O ininterrupto fluxo das águas das cataratas de Foz do Iguaçú compreende esta percepção. Nas paisagens vazias, o silêncio parece óbvio.

Lenci já declarou em uma outra oportunidade à Folha que seu trabalho tem como referência as pinturas do norte-americano Edward Hopper (1882-1967).

Para além do abominável clichê de que uma linda fotografia parece uma pintura, Hopper talvez seja o pintor que mais se aproxima da fotografia.

Mas se for preciso indicar um paralelo dentro do mesmo suporte, o livro encontra similaridades nas imagens de “The Long River”, do cultuado israelense Nadav Kander.

Não só o padrão cromático escolhido, mas a retidão obsessiva dos horizontes demonstram que “Desaudio” é uma obra madura, estudada, fruto de um trabalho consciente do fotógrafo.

O que também não evitou alguns poucos deslizes na edição.

A fotografia de um carro em movimento em Nova York poderia ser facilmente retirada do conjunto, assim como a paisagem selvagem de um jardim na França.

Maneirismos que destoam do eixo central do livro.

X

Na esteira dos livros-objetos, a obra vem “escondida” em uma sacola feita com uma fina espuma usada em materiais de isolamento acústico.

A embalagem joga com o silêncio proposto pelo autor, mas está no limite do anti-prático para guardar ao lado de outros livros.

Pouco importa. Há situações que não precisam ser práticas, precisam ser poéticas.

DESAUDIO
AUTOR Lucas Lenci
EDITORA Editora Madalena
QUANTO R$ 85 (60 págs.)

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