No Instagram, a mensagem é ‘estou gripado, apenas me ame’

Por DAIGO OLIVA

O texto abaixo, de uma das metades do Entretempos, foi publicado na edição deste domingo (01) da Ilustrada, parte da matéria sobre as selfies.

Você pode conferir a reportagem clicando aqui.

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O “New York Times” já avisou: em breve, a fotografia cumprirá o que o esperanto não conseguiu fazer. A utopia de um idioma comum para todo o mundo pode, enfim, se concretizar por meio de uma linguagem apenas visual.

É natural, então, que a narrativa desapareça tanto das mensagens de celular quanto dos diários feitos em caderninhos e até dos blogs, para dar lugar a imagens que registrem o dia a dia. Por que gastar linhas descrevendo o café da manhã, a academia e o namoro se é mais fácil traduzir com fotografias?

Mas essa pororoca de superexposição também produz alguns casos absurdos. Na semana passada, uma jovem de 19 anos registrou o velocímetro de seu carro marcando 170 km/h pouco antes de bater em uma viga e morrer. Não era uma selfie tradicional, mas não deixa de ser um autorretrato.

Nos casos sem tragédias é o constrangimento que caminha ao lado do absurdo, como nas fotos de hospitais. Se você está doente, à beira da morte, seu último ato em vida será uma imagem da pulseira de identificação do pronto-socorro? Há quem faça, e não é raro.

Se o sujeito está publicando no Instagram, é sinal que tudo corre bem. Os médicos deveriam dar alta aos praticantes dessa variação. A tradução da imagem é “estou gripado, apenas me ame”. Já os mais discretos podem nem aparecer nas fotografias, mas suas selfies estão ali, disfarçadas na marcação do local onde estiveram. Mais importante do que ir ao restaurante da moda ou à galeria de arte descolada é mostrar que você esteve lá.

Sempre foi assim. A diferença é que, agora, é possível espalhar os acontecimentos pessoais de uma vez só e de forma muito mais poderosa, como um anúncio grandioso. Resta saber para quem. A internet, sonhada como espaço de vanguarda e salvação da humanidade, se tornou apenas o palco de uma batalha diária para saber quem se destaca mais.

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Ainda dentro do tema, vale dar uma espiada no maravilhoso livro de Richard Misrach, “11.21.11 5:40pm”.

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