Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Crise desperta fotografia espanhola

Por DAIGO OLIVA

Uma das metades do Entretempos viajou a Madri e Barcelona para entender o que se passa com a badalada fotografia espanhola. O resultado da investigação está na capa da “Ilustrada” deste domingo, mas o blog publica aqui uma versão um pouquinho maior. Um bom final de ano a todos!

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A crise que se arrasta há cinco anos na Espanha teve ao menos um aspecto positivo. Se nos anos seguintes à ditadura franquista, terminada em 1975, Madri teve um renascimento cultural -a chamada “movida madrileña”- agora a recessão impulsiona uma nova geração de fotógrafos.

“Entre os anos 1990 e o começo da última década, qualquer um que quisesse ser artista tinha facilidade para realizar exposições”, diz o historiador Horacio Fernández. “Quando há muita oferta, é difícil que se façam coisas brilhantes”, completa o espanhol, que é autor da compilação “Fotolivros Latino-americanos”, mostrada recentemente no Instituto Moreira Salles.

Já a escassez de recursos ajuda no surgimento de novas vozes, segundo artistas locais. “A falta de apoio institucional e do governo fez com que fotógrafos soubessem que os frutos só viriam de esforços próprios. Para mim, a crise foi maravilhosa”, diz Fosi Vegue, 37, do coletivo BlankPaper.

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Criado há dez anos, o grupo virou escola em 2006 e é hoje, ao lado do também coletivo NOPHOTO, uma das principais referências dessa renovação.

“Poder compartilhar ideias e motivação com outras pessoas que estão na mesma frequência de onda é importante. Exige mais de você, te faz menos conformista e traz a necessidade de ir constantemente um pouco mais a frente”, explica Inãki Domingo, membro fundador do NOPHOTO.

No terceiro andar de um pequeno prédio no bairro boêmio de Malasaña, em Madri, as paredes da BlankPaper são cobertas de publicações e projetos de fotolivros -obsessão desses novos autores. Reflexo da fixação, o museu de arte contemporânea Reina Sofia inaugurou na última semana a exposição “Livros que São Fotos, Fotos que São Livros”, com cerca de 150 obras de 114 fotógrafos, lançadas a partir dos anos 2000. Com curadoria de Fernández, a mostra revela um traço comum a muitos destes livros: a autopublicação. “Os computadores, aliados à crise, permitiram esta independência”, diz o curador.

Entre os fotógrafos que já utilizaram desta prática estão Julián Barón, 35, e Ricardo Cases, 42, autores de “C.E.N.S.U.R.A” e “Paloma Al Aire”, ambos lançados em 2011 e com edições esgotadas.

O reconhecimento dessas obras só não foi maior que o atingido por “The Afronauts”, de Cristina de Middel. Seu fotolivro sobre a história de um professor da Zâmbia que sonha em viajar ao espaço fez muitos olhos se voltarem à nova fotografia espanhola. Os mil exemplares acabaram logo, e hoje a obra é raridade. Uma cópia usada sai por cerca de R$ 4.600 –nova, pode custar o dobro. Para Vegue, a disseminação do fotolivro ocorre porque “compreende o que o fotógrafo concebeu. Poderia acontecer com uma exposição, mas ali você vê e vai embora. O livro é uma visita constante”, diz ele. As narrativas se tornaram tão visuais que é possível encontrar obras em que o único texto é o nome do autor –e, ainda assim, discretamente.

“Parece que é uma espécie de livro mudo, como o cinema mudo, característica da cena internacional”, reclama Fernández. “Uma saída para que isso não seja uma moda é que existam mais obras como filmes, um pouco mais complexos e quem intervenha não sejam fotógrafos, mas escritores. Não sei”.

No térreo da Tabacalera, antiga fábrica de fumo transformada em centro de atividades culturais em Madri, a curadora Rosa Olivares realiza a montagem da exposição “Contexto Crítico – Fotografia Espanhola Século XXI”.

A mostra, que fica em cartaz até 23 de fevereiro, reúne 20 fotógrafos com menos de 40 anos e diferentes vertentes dessa geração de artistas espanhóis. Em comum, o que o trabalho desses novos autores têm, para a curadora, são características cada vez mais globais.

As linguagens reunidas vão desde uma estética pop e quase publicitária, como no caso dos painéis de carros destruídos fotografados por Jorge Fuembuena, até os retratos de Ali Hanoon, artista que mostra influência da fotografia alemã. “Eles já não estão tão apegados ao local. Estes fotógrafos abriram janelas, e isso é muito importante”, avalia Olivares. Ao mesmo tempo em que exalta a internacionalização desses artistas, ela faz um contraponto.

“É preciso levar em conta que a maioria desses jovens repete os esquemas de gerações anteriores”, afirma. “É uma repetição em torno de temas como a autobiografia, o mundo interior, o álbum familiar, a memória, a representação do real e do falso, todo esse tipo de estrutura.”

De fato, o trabalho do teórico e fotógrafo catalão Joan Fontcuberta é citado com frequência no meio, quando se trata de explicar o crescimento da geração surgida após os anos 2000. Fontcuberta, 58, iniciou suas atividades artísticas no final da década de 1970. Desde então, segue publicando livros e textos.

Para o fotógrafo Toni Amengual, além da ideia disseminada pelo teórico de que a fotografia, em última instância, representa sempre uma mentira, a atitude de Fontcuberta também serviu de inspiração. “Independentemente das temáticas, ele é um exemplo claro de que a dedicação, o esforço e a perseverança acabam por dar resultados”, conta ele, que é criador do festival de fotografia Visionaris. Fontcuberta recebeu neste ano o Hasselblad Award, prêmio que distribui cerca de R$ 353,5 mil e, em edições passadas, contemplou a norte-americana Nan Goldin e a francesa Sophie Calle.

A presença de artistas espanhóis em premiações vem crescendo desde o ano passado, quando Cristina de Middel foi finalista do Deutsche Börse Photography, concurso importante dedicado às maiores contribuições para a fotografia na Europa. Em novembro, Óscar Monzón, 32, autor do fotolivro “Karma”, que documenta a suposta intimidade de motoristas e passageiros no interior de seus carros, ganhou a disputa promovida pela feira de arte Paris Photo na categoria destinada às publicações de estreia.

Ricardo Cases, autor de “Paloma Al Aire”, destaca que, para além do viés crítico sobre a sociedade espanhola presente em algumas das obras, o interessante, para ele, “é a variedade de propostas dessa nova geração”.

Enquanto a crise reaparece em “The Pigs”, de Carlos Spottorno –que simula uma edição da revista “The Economist” para satirizar a visão estereotipada da mídia sobre os países europeus empobrecidos–, fotolivros como o de Cases partem de uma história divertida sobre uma corrida de pombos para então virar um estudo sobre as cores. A diversidade de técnicas e temas marca a nova fotografia espanhola.

Há tanto trabalhos subjetivos que buscam se aproximar de assuntos imateriais, como a distância, em “Almost There” de Aleix Plademunt, quanto obras de acento mais documental, caso dos retratos de prostitutas em “The Waiting Game”, de Txema Salvans. “Há uma concepção muito mais livre de criar, não há medo de romper a imagem e fraturar a fotografia como se fosse colagem”, diz o fotógrafo e professor Fosi Vegue.

O jornalista DAIGO OLIVA viajou a convite da Accion Cultural Española.

ps. Há ainda uma análise escrita por Jörg Colberg que você pode conferir clicando aqui.

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