Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Coutinho foi o documentarista que não sabia perguntar; ele sabia ouvir

Por DAIGO OLIVA

Morre o documentarista que não sabia perguntar. Ele sabia ouvir. De todas as qualidades de Eduardo Coutinho, a capacidade para criar ambientes em que se pode dizer qualquer coisa é a marca que ficará.

Não há jornalista no mundo que não tenha inveja de suas entrevistas. Se estiver vivo, que o senhor Henrique, o “cantor” de “My Way”, de Frank Sinatra, em “Edifício Master”, repita seu ritual hoje.

Repita, por favor, os três minutos que o cineasta reservou para a sua canção. Henrique era um típico personagem coutiniano porque o diretor era um tarado pelo ser humano em sua forma mais simples.

Ao entrevistar uma velha senhora para “Cabra Marcado para Morrer”, de 1985, o documentarista fica insatisfeito com o resultado do primeiro encontro –a presença de um homem deixa a mulher reticente. No dia seguinte, ele é recebido calorosamente e a mulher fala pelos cotovelos. O carisma de Coutinho é surreal. Em “As Canções” fez aquilo que só ele conseguiria fazer.

“Qual é sua música preferida? Qual a música mais marcante da sua vida?” poderiam se tornar as perguntas mais piegas de todos os tempos. Não foram. Num fundo escuro, com apenas uma cadeira, entrevistou delicadamente uma estrangeira, um sambista, uma mulher de 40 anos e tantos outros personagens escondidos no anonimato que tanto lhe atraía.

Coutinho sabia como deixar com que o entrevistado se entregasse. E assim descobria um amor destroçado, um assassinato perdido, um “invacilável”. Morre alguém que tinha a curiosidade e o respeito necessários para ouvir.

“Ser ouvido é uma das necessidades mais importantes do ser humano. Ser ouvido é ser legitimado”, disse Coutinho em declaração a Carlos Nader no documentário “Eduardo Coutinho, 7 de Outubro”. “Mas quem está preocupado em legitimar o outro?”. Obrigado, Coutinho.

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