Geração Zero Zero

Por DAIGO OLIVA

Em um fundo branco, um coração despedaçado é reconstituído em doze etapas. Passo a passo, a figura do músculo vai se transformando até abandonar completamente a forma subjetiva, esparramada e distante de seu estado comumente conhecido.

Embora o sentido da leitura da foto-performance “Ode (ao que se fode)”, do fotógrafo manauara Rodrigo Braga, seja o da reconstituição de um formato facilmente reconhecível, bem poderia ser o contrário.

As transições e recriações presentes no vídeo fazem parte do livro “Geração 00 – A Nova Fotografia Brasileira”, de Eder Chiodetto, pesquisa que busca mapear a reconfiguração da fotografia brasileira no período entre os anos 2000 e 2010. A publicação parte da exposição montada com o mesmo nome no Sesc Belenzinho, em 2011.

Parte do grupo de artistas reunidos na obra nasceram na virada da década de 1970 para os anos 1980. Cresceram no período em que o país passava pela transição política do fim da ditadura militar e, no momento do início de suas produções artísticas, já se encontravam imersos na explosão da internet e no uso de ferramentas digitais.

Fotografia de Sofia Borges, de 2007, da série “Retratos e Autorretratos”

Sem a urgência de simbologias políticas e sociais utilizadas por gerações anteriores, estes novos fotógrafos priorizaram em seus trabalhos a subjetividade, a mistura da abordagem documental com a ficção e a escolha por temáticas que desembocaram em autorretratos.

Se a fotografia brasileira dos anos 1990 é ainda marcada pela investigação da identidade nacional, a década seguinte possui preocupações menos locais.

A fotografia documental que tentava investigar o que é o Brasil foi preterida em favor da busca de aspectos psicológicos do indivíduo, independente da territorialidade. Assuntos como as populações indígenas ou obras que denunciavam a repressão militar dão lugar a questões como a memória ou o estudo da fotografia e suas novas possibilidades. O próprio documentarismo puro é reconfigurado ao combinar elementos do cinema e da literatura.

Mesmo os artistas nascidos antes da década de 1970, como o paranaense Odires Mlászho e a paulistana Cris Bierrenbach –presentes na pesquisa, segundo Chiodetto, por terem seus trabalhos mais importantes expostos a partir do ano 2000–, já possuem na gênese de suas obras a ideia de que a fotografia pode ser combinada a outros suportes e a percepção muito longe do simples registro documental.

Obra de 2004, do paranaense Odires Mlászho

Embora seja equivocado dizer que esta geração é menos “brasileira”, os fotógrafos, principalmente os que surgiram na segunda metade da última década, certamente são mais globais.

As experimentações com os novos recursos fotográficos disponíveis também aparecem como um dos principais eixos desta nova leva de artistas. Não só a manipulação das imagens, facilitada pelos softwares que simplificaram brutalmente o processo de recriações, mas também a disseminação do uso das câmeras digitais e a forma como as imagens são difundidas formam preocupações constantes para esta geração.

Após os anos 2000, o equipamento básico de um fotógrafo já não se limita apenas a uma câmera e um conjunto de lentes, mas também a necessidade de um computador. A publicação da pesquisa “Geração 00” é essencial, pois apresenta o contexto em que se insere a fotografia brasileira durante a primeira década do século XXI.

Não são os artistas, individualmente, que espelham as conjecturas. Eles estão presentes no tempo curtíssimo da História. Mas a partir da reunião de um espectro maior destes autores, sejam seus trabalhos fantásticos ou medianos, é possível desenhar estruturas que permanecerão –ou que irão se esvaziar– por um período mais largo na fotografia. É o que o próprio Chiodetto chama de “linhas de força”.

Imagens da série “Guerra”, do coletivo Cia de Foto

Ironicamente, em dezembro do ano passado, dois dias separaram o lançamento oficial de “Geração 00” do anúncio do fim da Cia de Foto, o maior ícone desta geração. Há dez anos, o coletivo de fotógrafos mudou a percepção da figura autoral na fotografia ao assinar suas obras apenas com o nome do grupo. A Cia subtraiu a ideia do autor como quem realiza o disparo para elevar a pré concepção de uma imagem.

Ao mesmo tempo em que flertou com o cinema e até a publicidade, o coletivo ainda disseminou o padrão estético de suas composições –carregadas no pós-tratamento e que subverteram o desenho fotográfico a partir da luz, para realizar criações com a predominância de sombras. Mas não foi uma obra ou um ensaio que marcou a Cia de Foto como referência da fotografia na última década, e sim a soma da postura de um tipo de fotógrafo que ainda não existia no país e as novas narrativas visuais. Esses elementos permanecerão, até mesmo para serem estilhaçados posteriormente.

“Geração 00” vem na seqüência do lançamento de “Curadoria em Fotografia – da pesquisa à exposição”, livro eletrônico vencedor do prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia em 2012. Disponibilizada apenas na internet, a obra reúne a documentação de 60 curadorias realizadas por Chiodetto e pode ser encontrada em www.ederchiodetto.com.br.

GERAÇÃO 00 – A NOVA FOTOGRAFIA BRASILEIRA
AUTOR Eder Chiodetto (org.)
EDITORA Edições Sesc São Paulo
QUANTO R$ 99,00 (272 págs.)

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