Pílulas de desilusão

Por DAIGO OLIVA

Na última edição da revista Serafina, meu amigo e ex-repórter de cinema da Folha Rodrigo Salem escreveu sobre Los Angeles, sua nova cidade, onde “ser um simples mortal é quase uma afronta”.

Do corretor de imóveis ao dono da locadora de carros, todos ali estão em busca de uma oportunidade na indústria do cinema. “Em Los Angeles, crianças crescem do lado de uma máquina que gera celebridades. Imagine ser criado como uma semente cultivada para a fama e virar um engenheiro?”

Mike Myers, de “Quanto Mais Idiota Melhor” e “Austin Powers”, definiu Los Angeles como “uma cidade composta por moléculas de desespero”.

Moléculas de desespero, pílulas de desilusão, tanto faz. As definições cabem perfeitamente na obsessão melancólica pelo sucesso retratada em “Hustlers”, projeto do fotógrafo norte-americano Philip-Lorca diCorcia.

Entre 1990 e 92, o artista pagou michês em Los Angeles para fotografá-los. No lugar de dinheiro em troca de sexo, o americano custeava os garotos de programa –com dinheiro de leis de incentivo– apenas para retratos.

Em sua maioria, os homens fotografados –e algumas mulheres também– buscavam o sonho hollywoodiano e acabaram na prostituição. Nas legendas das imagens, o nome, o preço, o local de origem e a idade de cada “modelo”.

20 anos depois de exibidas no MoMA, em Nova York, as fotografias de “Hustlers” foram publicadas pela editora steidldangin no formato de livro.

A obra, com dimensões de uma folha A3 e forrada de tecido, esconde em seu interior imagens de 10x15cm. É como o universo da publicidade que, ao se tornar realidade, mostra-se muito diferente do que foi vendido.

“Hustlers” discute diversos conceitos da fotografia ao mesmo tempo. Retoma a discussão dos trabalhos que navegam entre o real e a ficção –uma vez que não só os personagens, mas a luz também é milimetricamente dirigida para chegar ao resultado previamente pensado–, explicita a relação de troca entre fotógrafo e retratado e, ao usar dinheiro do governo americano para o projeto, faz também uma afronta contra a máquina institucional.

O que argumentar contra um artista que, de maneira inteligentíssima, gastou a verba de leis de incentivo com prostituição?

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