Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Ao vencedor, as batatas

Por DAIGO OLIVA

No último dia 12, a revista holandesa Foam anunciou o vencedor do Paul Huf Awards, concurso destinado a artistas com até 35 anos de idade.

Atualmente, esta é a competição mais ousada da fotografia contemporânea e todos os trabalhos contemplados são, de fato, surpreendentes.

Neste ano, o americano Daniel Gordon, 34, recebeu o prêmio. A mistura de colagem de registros achados on-line, escultura e fotografia rendeu ao artista 20 mil euros –cerca de R$ 64 mil– e uma mostra na sede da publicação.

“Vindo de uma geração que se sente confortável utilizando fotos da internet, Gordon encontra uma maneira única de reconstruir imagens em colagens tridimensionais, que depois se tornam fotografias”, justificou o júri.

O artista agora faz parte de um grupo seleto que já conta com a dupla Taiyo Onorato & Nico Krebs, Alex Prager, Pieter Hugo e Mikhael Subotzky. Todos eles com carreiras que confirmam o caráter pioneiro da premiação.

No vídeo abaixo, Gordon explica o caminho percorrido em seu trabalho. Além de discutir a materialidade de imagens que basicamente existem apenas on-line, o processo realizado pelo fotógrafo é tão ou mais importante do que registro final, o que torna a fotografia mero registro de uma performance.

Por que então escolher a fotografia como fim desse processo? Esse prêmio é mesmo sobre fotografia? Fotografia é escultura? Fotografia pode ser colagem?

Levantar perguntas talvez seja mais importante do que respondê-las.

Na época do anúncio do World Press Photo deste ano, o crítico alemão Jörg Colberg disse que “o problema com prêmios é que é impossível fazer todo mundo feliz ao mesmo tempo. Em parte, porque muitas pessoas têm expectativas muito diferentes sobre o que uma imagem vencedora deve ser”. 

Por esta razão é uma grande bobagem discutir se um trabalho x ou y é merecedor de tal prêmio. O júri decidiu que é e você pode concordar ou não.

Ontem, o pernambucano Gilvan Barreto foi o grande ganhador do concurso promovido pela Fundação Conrado Wessel com o ensaio “O Livro do Sol”.

O trabalho de Barreto reúne imagens feitas no verão de 2013, em viagem ao sertão nordestino em meio à maior seca dos últimos 60 anos. Fala sobre a água e a escassez da mesma, a partir da obra do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto. Com a vitória, o fotógrafo receberá R$ 114,3 mil.

Como dito, a vitória é incontestável. A obra atendeu àquilo que o júri buscava entre os selecionados. Mas a pergunta que fica é: quantas vezes você já viu, na fotografia brasileira, o tema do sertão? E da seca? Restos de animais mortos em razão da falta de água? Os sertanejos, os contrastes e a natureza?

Provavelmente, muitas vezes. É um assunto recorrente na produção nacional, ainda que em formato contemporâneo. O que mais chama atenção no resultado do Conrado Wessel, infelizmente, é o senso de repetição. De novo?

Não se trata de discutir se o trabalho é bonito ou não, se o tema é relevante ou não, se a falta de água é uma questão atual ou não (porque é).

Muito menos se trata de reduzir o trabalho de Barreto apenas ao assunto abordado –o que seria uma tremendo erro. O que se propõe aqui é pensar o que a fotografia pode criar e o que ela ainda pode ser.

A proposta de Gordon desafia uma fotografia estática que olha para o passado e, combinada com outros suportes, indica possibilidades no meio digital.

Entre “materialidade da internet” vs. “retrato da seca”, a primeira opção parece ser a mais surpreendente, pois oferece dúvidas sobre a fotografia em si e o aspecto físico de imagens que existem apenas digitalmente.

E levantar perguntas é mais importante do que respondê-las.

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