Josef Koudelka e Gregory Crewdson são destaques do ‘Maio Fotografia’

Por DAIGO OLIVA

O texto abaixo foi publicado na Ilustrada de sábado (3). Como o blog havia adiantado, Gregory Crewdson e Josef Koudelka mostram suas imagens no MIS de São Paulo, parte da programação do “Maio Fotografia”.

Com a colaboração de Juliana Gragnani, o Entretempos conversou com os fotógrafos e o curador das mostras, André Sturm, também diretor do museu.

De um lado, cenas verossímeis construídas meticulosamente com recursos do cinema. De outro, fatos retratados por uma testemunha nas ruas de Praga durante a invasão soviética em 1968. Diferentes representações da realidade, captadas por dois dos nomes mais importantes da fotografia do século 20, se encontram em mostra no MIS (Museu da Imagem e do Som) de São Paulo.

O tcheco Josef Koudelka, 76, e o norte-americano Gregory Crewdson, 51, lideram os destaques do “Maio Fotografia”, festival dedicado inteiramente ao suporte, que acontece no museu até o dia 22/6. Crewdson exibe dez fotos da série “Beneath the Roses”, em que cenas depressivas do subúrbio americano são feitas com estruturas megalomaníacas para emular situações reais.

Koudelka, membro da lendária agência de fotografia Magnum, mostra 75 imagens em preto e branco de quando Praga foi ocupada por tropas do Pacto de Varsóvia, aliança militar de países do bloco socialista. Contrabandeadas para fora do país e divulgadas um ano depois sob as iniciais P.P -“Prague Photographer”-, as imagens entraram para a história como registro fundamental da interrupção à Primavera de Praga, período de liberalização política da antiga Tchecoslováquia. Em 1970, o fotógrafo se exilou do país.

“Tirei as fotos para mim mesmo. Por sorte, fiz algo que ninguém mais fez. Não tive medo. Acreditava que nada iria acontecer comigo. Fui burro, não corajoso”, disse ele à Folha, quando esteve em SP para a abertura da mostra.

Kouldelka compara a ocupação ao conflito atual entre Rússia e Ucrânia. “O problema ainda é o mesmo. As pessoas querem liberdade, e vêm outras e tiram isso delas.” Para o fotógrafo, as imagens de 1968 não pertencem ao ramo do fotojornalismo. Ele nunca fez trabalhos para revistas ou jornais. Segundo o tcheco, seu amigo Henri Cartier-Bresson (1908-2004) o aconselhou a ater-se à foto em preto e branco e se afastar do fotojornalismo.

Autor do fotolivro “Gypsies”, clássico lançado em 1975 e republicado pela fundação Aperture há três anos, Koudelka viveu com ciganos da antiga Tchecoslováquia, Romênia, Hungria, França e Espanha de 1962 a 1971.
“Há uns anos, numa mostra na França, um cigano disse: ‘Josef é um de nós. Ninguém mais poderia ter tirado fotos de ciganos como ele tirou'”, conta o fotógrafo. “Mas não acho que seja verdade.” Talvez viva como um.

Tem um apartamento em Praga e outro em Paris, mas diz não considerá-los seu lar. Afirma não possuir carro nem celular. Na maior parte do tempo está viajando para fotografar objetos com os quais diz estabelecer alguma relação.

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‘REAL FALSO’

Já Crewdson prefere criar sua versão da realidade. Em seus projetos, chegou a recorrer a guindastes e chuva artificial. Até uma casa já foi queimada para que o artista norte-americano pudesse fotografá-la. “Quando você olha, tem a impressão que ele fez aquela foto de alguma coisa que estava acontecendo”, explica André Sturm, diretor executivo do MIS e curador das exposições.

“Mas é o inverso, é tudo construído. Achei que era uma subversão do conceito do flagrante do real. É o flagrante do real falso”, completa.

Segundo Crewdson, em entrevista à Folha por telefone, a organização de suas produções colossais –ele já chegou a comandar 40 pessoas para realizar uma única imagem– pouco tem a ver com seu jeito no dia a dia. O fotógrafo diz que “reserva essa obsessão apenas para o trabalho” e que sua vida é um pouco caótica. “Não acho que sou tão profissional na vida quanto sou na arte.”

A megalomania cinematográfica do artista é reforçada por Sturm. Segundo o diretor, “ele literalmente faz um filme inteiro para tirar dali só uma foto”.

O autor dessas imagens de rostos tristes que vagam pelas ruas desesperançosos afirma que gostaria de produzir filmes, mas encontra problemas com o formato. “Eu não penso em termos narrativos, me sinto confortável com imagens estáticas. Não sou um escritor, então, se eu fizer, será uma adaptação de um livro ou um roteiro feito por outra pessoa.”

Enquanto não faz seu próprio longa, Crewdson foi objeto do documentário “Brief Encounters”, de 2012. Dirigido pelo norte-americano Ben Shapiro, o filme segue o processo da obra do artista. Também será exibido na mostra.

O fotógrafo ainda fez parte, aos 17 anos, da banda de power pop The Speedies, que em 1979 lançou o grudento hit “Let Me Take Your Photo”, canção que se tornaria uma profecia em sua carreira.

Na parte brasileira, o MIS exibe trabalhos do baiano Robério Braga, do paranaense Valdir Cruz, uma coletiva dos integrantes do LABMIS (residência de fotografia realizada pelo museu) e mais 80 imagens de seu acervo. Cruz documentou rostos e paisagens de Guarapava, sua cidade natal, a 240 km de Curitiba. Serão expostas 40 imagens da série que leva o nome da cidade. Já “Luz Negra”, de Braga, tem 20 fotos que registram tribos do Quênia.

Koudelka: “Magnum não é mais a mesma de Bresson”

“A Magnum é o reflexo do mundo”, afirma o fotógrafo tcheco Josef Koudelka, que pertence desde 1971 à mais prestigiosa cooperativa internacional de fotógrafos. “Mas não é mais a Magnum da época de Capa e Bresson.”

Ele se refere aos fotógrafos Robert Capa e Henri Cartier-Bresson, que fundaram a empresa em 1947. Sem deixar o foco na fotografia documental, a agência se renovou ao longo dos anos ao aceitar membros com trabalhos mais experimentais, como o americano Alec Soth e o francês Antoine D’Agata.

Mas, segundo Koudelka, assim como outras agências, a marca vive uma crise. “Há tantas fotos no mercado que ninguém mais precisa comprar as fotos caras da Magnum.” Até o dia 1/6, o instituto Oi Futuro, no Rio de Janeiro, exibe a instalação “Community”, com imagens da agência.

MAIO FOTOGRAFIA NO MIS 2014
QUANDO ter. a sáb., das 12h às 20h, dom., feriados, das 11h às 19h; até 22/6
ONDE MIS, av. Europa, 158, tel. (11) 2117-4777
QUANTO R$ 6
Confira a programação completa em www.mis-sp.org.br/

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