Novo formalismo

Por DAIGO OLIVA

A revista holandesa Foam, especializada em fotografia contemporânea, publicou neste mês uma edição dedicada ao chamado “novo formalismo”.

“Uma seleção de nove artistas cujo processo criativo pode ser tanto o tema de uma imagem quanto o resultado final”, diz a apresentação da revista. “Parece que não há regras específicas, nem limites. Em um determinado ponto pode-se perguntar se ainda é fotografia o que estamos olhando”.

Entre os nove fotógrafos escolhidos pela Foam está o americano Daniel Gordon, 34. O Entretempos já havia falado sobre ele em uma postagem anterior. A combinação de colagem, escultura e fotografia impressionou uma das metades do blog. A edição da revista traz a ótima notícia de que Gordon não está sozinho na nova onda. Há outros artistas “em construção”.

Essa nova maneira de fazer fotografia não é paixão à primeira vista. Como disse o crítico alemão Jörg Colberg em seu blog, o “‘novo formalismo’ parece estar mais preocupado com o próprio suporte em si. É fácil rejeitá-lo, especialmente para aqueles com foco na fotografia tradicional.

Imagem da série “Horizon/S”, do norte-americano Matt Lips

O blog ficou interessado em entender os trabalhos do americano e do italiano Lorenzo Vitturi, cujo livro “Dalston Anatomy”, já tão falado aqui, mostra que muitas vezes o processo para chegar à fotografia final é tão ou mais importante do que o própria imagem em si. Não só. A intersecção com outros suportes artísticos, como a escultura, é fascinante. Empurram as barreiras da fotografia para limites ainda mais amplos. Como disse Colberg, trata-se de discutir a própria fotografia. Há quem goste e há quem ache essa meta-discussão uma chatice. Cada um no seu quadrado.

O Entretempos falou com Gordon há poucos meses. O texto abaixo, editado como depoimento, pode ajudar a entender o que esse “novo formalismo” significa. Mesmo para aqueles nem tão ligados a uma fotografia mais cabeçuda, as imagens criadas por esses artistas são uma surra visual.

“Eu absolutamente acho que o meu trabalho é fotografia. Meu estúdio e meu processo podem ser interessantes, mas minha obra é o objeto físico que se determina como uma impressão fotográfica. Acho que pela sua gênese, meu trabalho lida com a ideia de transformação fotográfica. Como Garry Winogrand disse, eu fotografo para ver como algo parece quando fotografado. Meu pai é um cirurgião e minha mãe é pediatra. Com certeza há similaridades na maneira como construo imagens. De alguma forma, sou um cirurgião. Mas, claro, enquanto eles têm a habilidade para salvar vidas, eu apenas faço fotos. Meu interesse na materialidade de uma fotografia provavelmente vem do fato de que há imagens que existem apenas em telas em vez de impressas. Porém, eu não acho a internet e a tecnologia digital algo pejorativo. Elas simplesmente adicionam mais material para uma surpreendente quantidade de imagens. E isso é ótimo! Minha intenção como artista é tentar fazer fotos novas fora essas que já existem. Não acho que há apenas uma maneira para ser um bom fotógrafo. Boas imagens podem ser feitas em qualquer gênero. Depende de quem está fazendo as imagens.”

Vale ainda ver o vídeo que mostra o processo criativo do americano. Genial.

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