Alemão acumula arquivo de 20 mil fotos de famosos com seu ursinho

Por DAIGO OLIVA

O texto abaixo foi publicado na Ilustrada de domingo (24) por uma das metades do Entretempos. Esta metade do blog fica imaginando se este acervo de imagens fosse descoberto por alguma editora de livros de fotografia contemporânea… É o típico caso da chamada “found photography”. Mas de um autor que não perdeu suas fotos. Uma história surreal. 😉

Foto: Karime Xavier/Folhapress

Um executivo alemão chega ao consultório de seu novo dentista com uma surrada bolsa de couro. O dentista pede ao paciente que deixe a mala do lado de fora da sala de radiografias, mas recebe uma resposta intimidadora: “Aqui tem um objeto do qual não posso me separar”.

Foi a senha para que o dentista João Chaves imaginasse um “carregamento de drogas ou diamantes”. Nem passou pela cabeça que fosse um urso de pelúcia bege com bandana no pescoço e botão para substituir um olho perdido.

Amigo inseparável de Joachim Zahn, o ursinho é o brinquedo “recordista” em aparições públicas ao lado de políticos e celebridades que ele encontra em jantares e reuniões de trabalho. Zahn é ex-diretor da Mercedes-Benz e atual dono de uma empresa de consultoria que tem “relacionamento na África e com o meio ambiente”, segundo ele.

Aos 68, ele acredita ter mais de 20 mil fotos do urso com figuras como presidentes (Lula, FHC, Sarney e George Bush pai), candidatos ao Planalto (Marina Silva), pilotos (Michael Schumacher), empresários (Luiza Brunet) e ditadores comunistas (Fidel Castro).

A história começou em 1987, quando a filha de Joachim, Gill Zahn, deu o boneco ao pai como “talismã de boa viagem”. Ela tinha cinco anos. No início, ele fotografava o urso (que não tem nome, é só “urso”) em pontos turísticos para a filha ver: a Casa Branca, em Washington, a Torre Eiffel, em Paris…

CELEBRIDADES

Até que, durante um voo, Joachim encontrou uma celebridade: Raul Boesel. O empresário pediu que o piloto de corridas posasse com o bicho. A experiência deu início a um tipo de marketing pessoal muito particular.

“Quantas pessoas o FHC encontra por dia? De quantas ele lembra? Se tira uma foto com urso, isso fica na memória e abre portas”, diz Zahn.

Após três anos na África do Sul, o executivo se mudou para o Brasil e passou 28 anos na filial brasileira da montadora alemã Mercedes-Benz.

Na companhia, ele cuidou de vendas ao setor militar e gerenciou o relacionamento com governo e instituições. “A história é muito conhecida. Na sala dele tinha um monte de fotos de gente importante”, conta Maura Creazzo, 42, gerente de comunicação da Mercedes. Ela diz que a lenda do urso de Joachim é famosa no meio automobilístico.

X

Os registros das celebridades são guardados em três álbuns que o alemão carrega junto com o urso em sua bolsa. Ele diz que, ao mostrar as imagens, as pessoas “entendem que o pedido para tirar foto não é uma piada” e aceitam ser fotografadas. Com Fidel Castro, há 18 anos, Joachim teve de passar o urso seis vezes no raio-X antes de entregá-lo ao cubano, após um jantar em Havana para discutir a venda de motores da Mercedes para Cuba.

Desde 2008, Joachim adotou uma pequena câmera digital e deixou de imprimir as imagens. Além de celebridades, o consultor também alimenta seu acervo com amigos e pessoas próximas que vai encontrando em seu dia a dia.

Ele afirma nunca abordar pessoas sem conhecer, embora existam exceções: o urso já posou com uma prostituta de rua em Copacabana, com um pescador na Amazônia e com mendigos diversos.

FOTOS ‘FEIAS’

Embora o volume de imagens seja grande, o alemão não se considera um fotógrafo. Ele diz que gostaria de publicar um livro para crianças com os registros, mesmo que sua mulher brinque que “as fotos são feias”.

“Ele é o homem do urso. Mais do que da mulher”, diverte-se a companheira de Joachim, a suíça Miriam Zahn, 57. Ela conta que, em uma das vezes em que o urso foi perdido, o marido a fez largar um jantar à luz de velas ao perceber a falta da pelúcia. “Para ser sincera, às vezes dá ódio, mas é preciso ceder para o bem-estar do dia a dia”, confessa Miriam, com um sorriso.

Para a filha Gill, hoje com 32, o costume inusitado foi um desconforto na adolescência, quando o pai aproveitava seus colegas para aumentar sua coleção. “Meu avô dizia que, se for pra fazer algo, que faça com consistência. É a coisa germânica”, analisa ela. Ao se despedir, Joachim chamou o jornalista de volta e o fotografou com o urso. Clique. Que alívio.

VIDA URSINA

O urso foi dado à filha do alemão Joachim Zahn em 1987, presenteado junto com outro bicho de pelúcia (que foi roubado). Ele já foi perdido três vezes: esquecido na areia de uma praia em Fernando de Noronha (PE), em uma balsa em Ilhabela (SP) e em um museu na Alemanha. Sofreu dois acidentes graves. Perdeu um olho ao ser arremessado de um carro no autódromo de Interlagos e caiu de um helicóptero durante uma filmagem em São Paulo.

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