Coletivos de fotografia mapeiam Santos durante encontro de grupos

Por DAIGO OLIVA

Quase um ano após o fim da Cia de Foto, coletivo que rejuvenesceu a fotografia brasileira nas últimas décadas, o modelo de trabalho em conjunto continua em alta. Na última semana, 20 grupos de 12 países se reuniram no 3º Encontro de Coletivos Fotográficos Ibero-Americanos, em Santos.
Eles se concentraram em um espaço construído com conteinêres na orla santista para debates e produção de ensaios sobre a cidade sede.

Segundo o catalão Claudi Carreras, curador e organizador do evento, a escolha de Santos se deve à sua importância como porta de entrada para produtos de diversos países, uma alusão a confluência de culturas.
Outro fator que pode ter ajudado na escolha do lugar para o evento foi o aporte financeiro do Sesc local, onde o resultado dos trabalhos é exibido até 2/11. A mostra faz parte do festival Mirada. Segundo a assessoria do Sesc, o E.CO, como foi batizado o encontro, recebeu cerca de R$ 500 mil.

ARQUEOLOGIA 

Entre as ideias propostas para mapear a cidade estão o registro da casa onde caiu o avião do então candidato Eduardo Campos –uma simbologia da possível quebra da hegemonia do PT no governo– e a relação de moradores de Cubatão com a natureza. A ótica apresentada destoaria do rótulo dado à cidade, próxima à Santos, como uma das mais poluídas do país. Os trabalhos foram realizados pelos coletivos Altavista, da Praia Grande, e pela junção da Mídia Ninja (Brasil), SUB Cooperativa de Fotógrafos (Argentina) e Paradocs (Equador), que também acompanharam rappers da baixada Santista.

Mosaico de fotos produzidas pelo coletivo mineiro SC02

Outros coletivos apresentaram projetos mais experimentais, como os mineiros do SC02 que, em registros feitos em um fundo branco, buscaram uma espécie de arqueologia contemporânea ao fotografar objetos que foram levados ou trazidos pelo mar. Já o Garapa trabalhou ao lado do grupo Dokumental, do Uruguai, em trípticos que fazem relação entre imagens de imigrantes japoneses que chegaram ao país na década de 1950, o mar, e africanos que aportam hoje no Brasil escondidos em conteinêres.

Um dos convidados de destaque do E.CO, o coletivo espanhol BlankPaper não participou do ensaio sobre Santos. Além de palestras, os fotógrafos Óscar Monzón e Fosi Vegue ajudaram apenas na edição dos trabalhos. “Chegar a um lugar quase como um turista me faz sentir que não posso falar com propriedade sobre a cidade”, explica Monzón. Porém, os fotógrafos acreditam que o exercício proposto pela curadoria pode ser realizado por grupos que conseguem trabalhar dentro deste tempo e deste tipo de aproximação.

MULTIDISCIPLINAR

Segundo Carreras, a tônica desta edição do encontro foi a fotografia expandida para outros suportes. Ele cita como destaque a presença dos argentinos do Iconoclastas, coletivo formado por arquitetos que fizeram um mapeamento de Santos a partir das diferentes escalas sociais da cidade. Para o curador, os grupos que contam com diferentes formações, e não apenas por fotógrafos, são os que “levam a fotografia para outros lugares”.

Outro grupo que destoa do modelo tradicional é o La Piztola. Os mexicanos reproduzem fotografias em grande escala usando estêncil, com mensagens de protesto e figuras que representam a luta contra o narcotráfico local. Os grafiteiros Roberto Vega, 32, e Rosario Martinez, 33, contam que as imagens foram uma extensão de ações sociais que realizam em sua cidade, Oaxaca.

Se o debate clássico sobre coletivos, a assinatura em grupo, está ultrapassada, para Carreras a importância do formato hoje está na produção. “Trabalhar junto forma produtos mais sólidos. Se você tem pessoas para discutir o seu livro, com certeza ele será melhor”. Os membros do BlankPaper que, embora formem um coletivo, publicam individualmente, concordam. “Fotografar é um trabalho solitário, que muitas vezes parece não ter nenhum sentido. Se está num coletivo, você se sente motivado a aprender e a avançar”, defende Monzón. “É bom ter alguém com confiança para dizer se está bom ou ruim”, completa Fosi Vegue. “Como uma terapia em grupo?”, pergunta a reportagem.

“Com certeza”.

E.CO – EXPOSIÇÃO DE COLETIVOS IBERO-AMERICANOS
QUANDO de ter. a sex., das 10h às 21h30; sáb. e dom., das 10h às 18h30
ONDE Sesc Santos, rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida – Santos
QUANTO grátis

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