Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Palestra incendiária de Alex Flemming marca último dia do Paraty em Foco

Por DAIGO OLIVA

O último dia do festival Paraty em Foco ficou marcado pela fala agitada de Alex Flemming. Sempre de pé, o brasileiro –conhecido pelos retratos na estação Sumaré do metrô de SP– provocou com ideias assertivas sobre arte, foi aplaudido pelo público mais de uma vez e chamou Tarsila do Amaral (1886-1973), símbolo da pintura modernista do país, de “péssima artista”. “Artista é quem produz a vida inteira. Ela pintou durante cinco anos.”

Com excelente mediação do pesquisador Ronaldo Entler, Flemming, 60, distribuiu aspas polêmicas, sempre de um jeito despojado, jogando com o bom público que ocupava a Tenda Multimídia na manhã deste domingo (28).

Intervenções com tinta acrílica sobre fotografias, pinturas e fotocópias são a base do artista radicado em Berlim há 23 anos. O blog separou as principais falas de Flemming, em uma ótima mesa realizada no festival. Enquanto explicava sua produção, ele metralhou formulações sobre o que é ser um artista, a proibição do restauro de sua obra, a perda dos cromos originais dos painéis no metrô e por que deixou de destruir seus próprios trabalhos.

Artista é a pessoa que produz muito. Você tem que ser extremamente organizado, rigoroso e fazer. A vida é fazer, fazer e fazer. Ou você fez ou você não fez. Não existe meio termo ou portas meio abertas. Arte não tem piedade. Ou você faz bem ou não faz. Ou você decidiu e enfrentou, ou você morreu. E, além de produzir muito, artista é quem produz coisas diferentes. Não quero chegar ao fim da vida com uma retrospectiva que é um tédio.

Eu quero fazer coisas diferentes, quero a pesquisa do material e da linguagem. E pode soar egocêntrico, mas quero a pesquisa de mim mesmo. Porque eu faço a obra para mim. Não interessam os críticos, não interessa o mercado, faço a obra para mim e quero que vá para a puta que pariu.

Eu deixei no meu testamento que eu proíbo o restauro das minhas obras. Elas têm que ter a cicatriz do tempo, tem que ter os baques, o que vai acabando. Porque o grande destruidor não é a morte, é o tempo. O tempo vai além da morte. É importante que a obra vá morrendo com o tempo.

A minha conversa é a seguinte: Você tira o papa e é você e deus. Eu e a arte. Não interessa o resto. No Brasil, nós temos uma arte de classe, de cartas marcadas. Eu acho que a Tarsila do Amaral é uma péssima artista, que estudou em Paris e fez poucos quadros. Artista é quem produz a vida inteira. Tarsila pintou durante cinco anos. E para provar que aqui é um país de cartas marcadas, de arte para a elite e pela elite, Tarsila se casou com Oswald de Andrade. Dois grandes caras da elite paulista que, naquela época, se diziam comunistas. Quem foi o padrinho de casamento da puta que pariu? Foi o presidente da República! Vai para a puta que pariu, gente!

Eu sei que sou artista desde os cinco anos de idade. Eu não acredito em pessoas que deixaram suas visões na gaveta, não acredito em pessoas que fizeram meia coisa, meia verdade. Muitas vezes, a gente fala: “Ah, coitadinho, o cara é coveiro porque a sociedade não deixou ele ser outra coisa”. Não! Ele é coveiro porque gosta de cadáver, não há dúvida.

Os cromos originais do “Sumaré” estavam em duas caixinhas. Uma delas eu perdi. Fiquei triste que isso aconteceu, mas realmente tanto faz, porque a estação Sumaré tá ali. O original acabou. Todo mundo faz coisas boas, menos boas e muito ruins. Eu fiz muitas coisas muito ruins. E eu destruí muitas coisas que fiz. Na década de 1970, produzi sete curtas-metragens em Super 8. Ganhei festivais e saiu na TV Cultura. Depois eu achei que aquilo tudo era ruim, não-profissional e queimei os filmes. Durante mais de duas décadas, eu queimei, destruí e joguei fora várias coisas, até que tive um namorado que escondia as minhas obras. O que foi legal, porque hoje eu consigo me entender melhor na sequência da vida. Hoje eu espero e tento não destruir, mas de vez em quando eu destruo. Acho importante destruir. 

O jornalista DAIGO OLIVA viajou a convite do festival.

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