Rinko Kawauchi: ‘Eu era uma onda, uma montanha-russa de sensações. Estou melhorando, mas sou caótica’

Por DAIGO OLIVA
Foto: Cassiana Der Haroutiounian

O lugar escolhido para a entrevista combina com o clima delicado das fotografias de Rinko Kawauchi. Um passarinho pia sem parar, como os preciosos pontos de luz das imagens da artista, que chega silenciosamente no saguão do hotel em que estava hospedada, no centro histórico de Paraty.

Camiseta branca, echarpe clara –quase invisível–, calça de alfaiataria azul e sandália de salto grosso. Salto em Paraty? Só mesmo uma japonesa conseguiria desfilar com elegância pelo tortuoso chão de pedras da cidade.

Desde a chegada da fotógrafa, o assunto mais comentado do Paraty em Foco, que terminou sua décima edição neste domingo (28), era a sua maneira monossilábica de se comunicar, limitando-se a movimentos com a cabeça para dizer “sim” ou “não” e poucas expressões faciais. Diante da situação, o Entretempos pensou em um caminho pouco usual para a conversa.

Se o diálogo estava restrito a poucas frases, que tal um rápido jogo de palavras? Para cada cor ou objeto citado, ela teria que dizer qual é a sensação correspondente que lhe vem à cabeça. Uma das metades do blog explicou o método para a fotógrafa e ela achou graça. Ufa, um sorriso! A proposta parece ter funcionado e ela se soltou, até mesmo para questões mais compridas.

Ariana, Rinko nasceu em um 6 de abril, há 42 anos. Ela se define como uma pessoa caótica, o que contrasta com as imagens delicadas e harmoniosas de seus livros. “Além de sua personalidade, você também define suas fotos assim?”, pergunta a reportagem. “Com certeza!”. Principal nome da fotografia de seu país, Rinko produz registros do cotidiano que estabelecem relações entre vida, morte e a destruição como sinal de renovação. Em 2001, lançou três livros de uma vez só, que se tornaram clássicos contemporâneos. Momentos efêmeros e fenômenos da natureza são registrados de forma sutil.

“Quando eu era mais nova, era como uma onda, uma montanha-russa de sensações. Agora estou melhorando um pouco, ou pelo menos tentando”. A japonesa diz que pratica ioga e que tenta fazer –em alguns momentos– com que a sua respiração seja um processo racional. E terapia? “No Japão, isso é muito raro. As pessoas não têm o hábito de falar sobre as suas vidas. Falo dos meus sentimentos com amigos próximos”, conta. “Mas leio livros sobre psicologia e diários de pessoas que admiro. Isso me ajuda, eu acho.”

O passarinho no saguão do hotel tenta competir com a voz de Rinko. O blog embala na piração e pergunta se é possível fotografar sons. “Um som pode mudar a percepção de uma cena. Eu fotografo todos os dias da minha vida, muitas vezes apenas como ecos na minha cabeça. Não são sessões de fotos, mas apenas sensações de uma foto.” Começamos o jogo das palavras.

Branco? Nirvana. Vermelho? Energia. Azul? Calma. Amarelo? Meu sobrinho. Verde? Conforto. Preto? Solidão. Cristal? Esperança. Arco-íris? Perfeição. Busca a perfeição? Às vezes, muitas vezes. Trilha sonora para o seu trabalho? Tchaikovsky. Um cineasta? Pedro Almodóvar. E para dirigir um filme sobre a sua vida? Hirokazu Koreeda. Um escritor? Banana Yoshimoto. Um fotógrafo? Pode ser fora da fotografia também? Gabriel Orozco, James Turrell, Rei Naito, Leiko Ikemura e Terri Weifenbach. Praia ou montanha? Montanha, pelo silêncio e pelo verde. Para nadar? Piscina, sempre. Café ou chá? Café. Mundo real ou imaginado? Uma realidade imaginada. Realidade, porque fotografo o meu mundo e onde vivo. Imaginada, porque é o meu recorte. Fotografia? Espelho. Selfie? Só quando eu era mais nova. O futuro? Tarô.

Rinko conta que está aprendendo a ler o tarô. Uma das metades do blog provoca e joga charme para conseguir com que ela leia seu futuro, mas está sem as cartas, o que rende uma boa gargalhada. Depois de alguns devaneios místicos sobre o tema, a japonesa conclui que as cartas podem ser como a fotografia. Você escolhe acreditar naquele futuro promissor, assim como escolhe acreditar em uma imagem fotográfica, que é um recorte da realidade.

Para terminar, é possível fazer um retrato da fotógrafa? “Ih…”. Ela para na cadeira, com o corpo reto e um sorriso tímido. Não gosta muito do resultado, e pede para fotografá-la de novo, agora com ela operando o celular. Rinko sorri e tenta me alcançar com os braços, como se fosse guiar.

A foto é aprovada e a conversa acaba. Mas ela continuou ali, sentadinha com seu livro. Minutos depois, levantou-se e foi até a beira da piscina para fotografar. O dia estava nublado e, quem sabe, um outro pássaro não tenha cantado e a inspiração momentânea, que ela havia confessado, aparecido?

A jornalista Cassiana Der Haroutiounian viajou a convite do festival.

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