‘Fotógrafo dos escritores’, argentino Daniel Mordzinski expõe no Brasil

Por DAIGO OLIVA

“Desculpe-me. Depois de 12 horas de viagem, cheguei a Belo Horizonte, onde recebi a notícia do merecido prêmio ao grande Modiano e tive ‘urgências’ para atender”, respondeu o fotógrafo Daniel Mordzinski ao retornar o pedido de entrevista da Folha. Todo ano, após a divulgação do Nobel de Literatura, o argentino talvez seja tão procurado pela imprensa quanto o vencedor da honraria. Mordzinski, 54, o “fotógrafo dos escritores”, pode dizer que já teve à sua frente os principais autores das últimas décadas.

Além do francês Patrick Modiano, ganhador do Nobel na última quinta-feira (9), ele já documentou outros laureados como o peruano Mario Vargas Llosa, a sul-africana Nadine Gordimer (1923-2014) e o português José Saramago (1922-2010). Mas sua lista de retratados é imensa. Amos Oz, Etgar Keret, Eric Hobsbawm, Ian McEwan e tantos outros importantes romancistas, contistas e historiadores já posaram para ele.

O escritor argentino Adolfo Bioy Casares

O fotógrafo está no Brasil para uma exposição que fez parte do Festival Literário de Araxá. Até 30/10, ele mostrará 70 fotografias tomadas em quartos de hotéis, lugar que o fotógrafo define também como “quartos de escrituras”. “Quase ninguém vive em um hotel. Por isso, quando os escritores o utilizam, vivem uma situação diferente”, explica à Folha, por e-mail.

“Ainda que seja por uma noite, o quarto de hotel é a possibilidade de um mundo à parte. É, de alguma maneira, uma metáfora da nossa própria vida, um lugar onde estamos de passagem”, filosofa. Mas como não ser repetitivo em ambientes tão pasteurizados como as hospedarias?

Nas imagens do argentino radicado em Paris há mais de três décadas, um espelho, uma parede ou espaços exteriores aos quartos servem para que ele não caia na configuração padrão de cama, cômoda e telefone —embora às vezes aconteça, como no retrato do egípcio Alaa Al Aswany.

“Me interesso pelos espaços de trânsito. Há 15 anos fotografei Alfonso Mateo-Sagasta na lavanderia do hotel, onde ele estava passando roupa”, conta. “O essencial é que o escritor se sinta protagonista dessa pequena história. Não planejo meu trabalho como o triunfo de um paparazzo. Não posso trair o autor. Trata-se de estabelecer cumplicidade.”

MUTILAÇÃO
Há um ano, Mordzinski sofreu um baque em suas relações de cumplicidade. O fotógrafo calcula que 50 mil negativos de seu arquivo desapareceram do prédio do jornal francês “Le Monde”, onde ele guardava o material. Os originais estavam armazenados havia dez anos em uma sala cedida aos correspondentes do diário espanhol “El País”. A coleção foi supostamente jogada no lixo por funcionários do “Le Monde” em uma mudança interna.

Um representante do “El País” na França disse na época que não havia nenhum acordo de uso entre os dois jornais e os contatos de Mordzinski não constavam no jornal francês. O “Le Monde” lamentou o episódio, mas se defendeu das acusações do fotógrafo, dizendo que ele “depositou seus arquivos na sede sem avisar a ninguém”. O argentino não se conforma.

O ensaísta Jorge Luis Borges

“Custa muito falar sobre isso. Mas, mais do que um acidente, eu diria que se trata de uma mutilação, não apenas de parte da minha vida, mas também da memória coletiva da minha geração”, lamenta. “Pense que entre os milhares de negativos havia centenas de fotos inéditas de Cortázar e de Bioy Casares.”

Segundo Mordzinski, o trabalho como correspondente do “El País” lhe deu a desenvoltura para não se intimidar diante de nomes tão celebrados. Para ele, a experiência com emergências e com políticos o ajudou a perder o “medo dos personagens”. Mas admite que se impressiona com alguns escritores, porque “não é preciso ter um Nobel para ter uma personalidade avassaladora”.

Questionado sobre seu autor brasileiro preferido, Mordzinski recua elegantemente. “São muitos, seria um pecado esquecer alguém. Mas quero fazer uma homenagem a um mestre que foi muito importante na minha vida: Sebastião Salgado, como fotógrafo e como símbolo de um jornalismo crítico”, diz ele. “Quando cheguei a Paris, ele abriu as portas de sua casa e me deu a mão. Sua generosidade é parte de sua genialidade”, derrete-se.

RETRATOS DE ESCRITORES EM HOTÉIS
QUANDO seg. a dom., das 9h às 18h; até 30/10
ONDE Tauá Grande Hotel, rua Águas do Araxá, s/nº – Araxá (MG)
QUANTO grátis

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