Cristina de Middel transforma favela em fundo do mar e polícia em tubarão

Por DAIGO OLIVA

Durante a última edição do festival Paraty em Foco, em setembro, uma visita ilustre apareceu no centro histórico da cidade. Destaque do evento em 2013, a espanhola Cristina de Middel voltou ao litoral do Rio, mas agora para passear. A fotógrafa também está no Brasil para realizar um novo trabalho. Após os fotolivros “The Afronauts”, “Party” e o terceiro volume da série produzida pela editora Self Publish Be Happy, De Middel participa ao lado da britânica Jennifer Pattison de uma residência promovida pelo Instituto Inclusartiz.

Em “Sharkification”, a espanhola transforma a favela carioca da Rocinha em fundo do mar e a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), projeto da Secretaria de Segurança do Rio, em um tubarão –representado por um balão de gás hélio comandado via controle remoto. “A ideia é converter a comunidade em um ambiente subaquático, onde há peixes predadores e peixes pequenos, que se escondem e ‘lutam’ com suas estratégias para se manterem vivos”, explica. De Middel trouxe de Londres, onde vive, três balões em forma de tubarão e os pintou com as cores da UPP. Assim, documentou a reação dos moradores da favela e pediu a eles que interpretassem os peixes pequenos que fogem de seu predador. Um vídeo do trabalho também está sendo produzido.

A fotógrafa ainda acaba de lançar seu primeiro fotolivro como editora. “Everything Will Be OK”, do também espanhol Alberto Lizaralde, é a prova de que tem uma espécie de toque de Midas. Sem contar a indiscutível qualidade do livro e de suas fotografias, o apadrinhamento deu ares de sucesso instantâneo à publicação. Um pouco do que ocorreu com ela mesma ao lançar “The Afronauts”, a história de um professor de ciências na Zâmbia que quer criar a primeira agência espacial de seu país e fotolivro que se tornou desejado em todo o mundo.

O Entretempos conversou com a fotógrafa, que discorreu sobre o novo projeto e as críticas que recebeu ao lançar o fotolivro “Party” –em que apaga parágrafos do livro vermelho de Mao Tse Tung, ironizando a censura do partido comunista chinês–, além de falar sobre as três publicações que editará até 2015.

Entretempos – Como está sendo a residência artística no Brasil?

Cristina de Middel – É um projeto do Instituto Inclusartiz durante quatro semanas no Rio de Janeiro. Somos duas fotógrafas desta vez: Jennifer Pattison, uma fotógrafa britânica muito interessante e eu mesma. A residência ocorre em um bairro muito exclusivo e é uma mudança de ares importante. E com vistas estupendas. 😉

Como aconteceu o convite? 

Convidaram-me porque conheceram o projeto que estou quase acabando na Nigéria, em Lagos, onde trabalhei em um bairro parecido com uma favela. Perguntaram-me se eu estaria interessada em fazer algo similar no Rio, onde as situações são muito próximas. Na Nigéria estou produzindo um história sobre fantasmas, nas favelas do Rio é um documentário de tubarões. Consegui começar o trabalho e me dei conta de que há muitas outras possibilidades que desenvolverei quando voltar, no ano que vem.

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Já existe algum plano para que o trabalho seja exposto?

É possível que seja parte do [festival] FotoRio em junho do ano que vem, ainda que eu tenha que terminar a série antes. É uma prioridade minha que esta série seja vista no Brasil, ainda mais no Rio.

Você já tinha uma ideia da situação das favelas pacificadas antes de vir ao Brasil ou foi algo que descobriu aqui? 

Conhecia a situação por cima, porque apareceu na imprensa internacional com as intervenções prévias ao Mundial de futebol e as manifestações no Rio. É um tema interessante porque tem dois ângulos muito claros. A polícia é boa ou ruim, dependendo de onde você se situa, e o que pode parecer uma solução se converte em um novo problema. Em qualquer caso, quando cheguei ao Rio entendi melhor a complexidade do assunto.

Você esteve em qual favela?

Estive na Rocinha, mas a ideia é voltar a fazer o mesmo em outras favelas no começo do ano que vem.

Como foi a interação com os moradores? Aceitaram rapidamente a ideia de interpretar pequenos peixes fugindo do tubarão da UPP?

Trabalhei poucos dias para ter uma ideia completa de como funcionam as coisas, mas o pessoal respondeu bem ao jogo que propus, porque é isso: um jogo que jogamos juntos. Neste caso, foi bastante fácil explicar, e esses dias em que estive fotografando serviram para confirmar que não seria muito complicado fazer o resto. Os moradores pareciam dispostos a jogar, e a acolhida foi muito boa, ainda que eu insista em dizer que tenho de trabalhar muito para completar a série. Isso é como um aperitivo.

Há uma parte dos moradores das favelas que acreditam que a vida melhorou depois da instalação das UPPs, que agora a vida é mais segura. Qual é a sua opinião sobre esta política de segurança? O que você quer dizer com esta série?

Bom, eu escolho os meus temas quando há uma realidade e não a entendo. Aí quero me aproximar dela. Quando terminar a série, poderei te responder muito melhor a essa pergunta, mas no momento o que posso notar é que o estado de tensão que se vive, de vigilância contínua, é uma mudança incômoda para comunidades tão espontâneas. Converter-se em suspeito ao sair da porta de casa não deve ser bom para ninguém. O que é melhor: entorno violento ou entorno continuamente vigiado? Ainda não sei a resposta… Ainda não tenho uma opção, só sei que essa é a pergunta essencial.

Houve críticas de que em “Party” você estaria tratando um assunto muito sério com ironias e piadas. A questão da UPP também passa por algo assim. Há muitos abusos da polícia, mas o tráfico de drogas também acaba com a vida de muitas pessoas. O humor é uma parte essencial do seu trabalho. Como vê as críticas?

As críticas são sempre boas, ainda que sejam ruins. Para mim, o sentido do humor não é uma ferramenta para ridicularizar ou faltar com respeito. É uma ferramenta para entender o mundo. Há muitos tipos de sentido do humor e, se os utiliza bem, pode ser uma mensagem muito eficaz. Tal e como vejo, as reportagens que foram feitas sobre favelas anteriormente, e eu estou generalizando muito, baseiam-se em culpa ou em acusação. Pergunto-me se esta estratégia é o melhor sentido do humor. Culpa-se o governo, culpam-se os traficantes, culpa-se o leitor que não faz nada… Trata-se de informar e de compartilhar um ponto de vista, de lançar o debate sem que ninguém tenha que se defender. O sentido do humor para mim facilita isso: o debate.

Você vai lançar três livros em 2015, é verdade?

Na feira Paris Photo [em novembro], apresento uma pequena edição de “Polyspam”, muito artesanal, apenas 150 cópias. Também apresento o livro de Alberto Lizaralde, que publico como editora. E antes do fim do ano, com a [editora] AMC, publico “Jan Mayen”, um projeto falido de expedição ao Pólo Norte. E, antes de março, se tudo correr bem, o livro sobre a Nigéria que se chamará “This Is What Hatred Did”, também com a AMC.

Depois de uma viagem espacial, agora você vai ao fundo do mar. Para onde quer ir depois?

Daqui a duas semanas vou de novo à Nigéria, a uma selva habitada por fantasmas. Halloween time! 🙂

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