Morre fotógrafo Lew Parrella, autor de foto clássica de Lina Bo Bardi no Masp

Por DAIGO OLIVA

A postagem abaixo é de autoria de Ângelo Manjabosco, pós-graduando em Estética e História da Arte. O fotógrafo Lew Parrella, morto nesta quarta (5) aos 87, é tema de sua pesquisa na USP. Obrigado pelo texto, Ângelo!

Lina Bo Bardi durante construção do Masp em 1967 ao lado de um de seus cavaletes e de uma pintura de Van Gogh

Estava chovendo, como chovia nesta quarta (5), no dia em que conheci Lew Parrella. Foi em junho do ano passado, em seu apartamento na Praça da República. Ele apertou minha mão de maneira demorada e disse: “Lew é nome artístico. Me chamo Luigi. Sou fotógrafo”. A imagem ficou na minha mente por muito tempo, e voltou no exato instante em que recebi a mensagem dizendo que ele havia partido nessa madrugada.

O americano Luigi Giorlando Parrella nasceu em 1927 e começou sua carreira como assistente dos fotógrafos Eugene Smith (1918-1978) e Philippe Halsman (1906-1979). Depois, foi curador da Limelight, pioneira galeria de fotografia em NY. Convivia com Edward Steichen –então curador do MoMA, morto em 1973–, Edward Weston (1886-1958) e o escritor Henry Miller (1891-1980).

Na galeria, organizou a primeira exposição individual da fotógrafa Claudia Andujar, em 1960. Foi Claudia quem o trouxe para o Brasil, e com ela viajou pela Amazônia, Bolívia e Peru, sempre interessados em conhecer a cultura indígena. Ainda no começo dos anos 1960, produziram um documentário para a rede americana ABC sobre o trabalho de dom Helder Câmara.

Claudia e Lew foram morar na avenida Paulista em 1961, próximo ao estúdio do jovem fotógrafo Otto Stupakoff. Otto queria ir para Nova York. Lew havia recém chegado ao Brasil. Tornaram-se grandes amigos. Quando perguntei sobre Otto, Lew falou com muito carinho sobre o fotógrafo. “Eu passei
muito tempo com Otto porque era uma pessoa que falava inglês e havia
uma compatibilidade de interesses. Surgiu uma expressão entre nós: ‘Lew,
gotta go!’. Eu deixava meu carro dentro do pátio da casa em que ele morava. Éramos como dois irmãos. Eu contei muitas coisas para ele e ele me contou muitas coisas”. Otto Stupakoff faleceu em 2009.

Aos 37 anos Lew tinha sólidos conhecimentos em técnica e teoria fotográfica, e isso chamou a atenção de Victor Civita (1907-1990), então presidente da Editora Abril, onde assumiu o posto de diretor do departamento fotográfico. Trabalhou para as revistas “Claudia”, “Manequim”, “Quatro Rodas”, “Realidade” e “Veja”. Era parte de uma equipe que tinha, entre outros fotógrafos, Maureen Bisilliat, Walter Firmo, David Zingg, George Love, Luigi Mamprim, Jean Solari, Cristiano Mascaro e a própria Claudia Andujar.

Foto: Leo Eloy

No começo dos anos 1970, passou a atuar como fotógrafo independente. De seu estúdio, colaborou com as publicações da Abril e também produziu material para as revistas “Arte Vogue”, “Vogue”, “IstoÉ” e “Status”, para citar apenas algumas. Fotografou de Caetano Veloso a Alfred Hitchcock. Do estilista Pierre Cardin ao artista Wesley Duke Lee.

Há pouco de acaso nas imagens feitas por Lew Parrella, sempre muito preocupado com a qualidade da lente, luz e composição. Isso aparece, por exemplo, nos registros de Lina Bo e Pietro Maria Bardi para uma reportagem publicada na “Realidade” em junho de 1967. O fotógrafo fez questão de deixar seu acervo aos cuidados do MASP, devido a sua amizade não apenas com o casal Bardi, mas também com Renato Magalhães Gouvêa, diretor do museu.

Lew parou de fotografar no princípio dos anos 2000. Sua vista cansada já não tinha a precisão de antes. Mesmo assim, durante todos os dias dos seus últimos anos de vida, sua rotina era caçar notícias sobre fotografia. Acumulou caixas com recortes de jornais e revistas sobre exposições, livros e ensaios.

Fazia observações com caneta azul, e com caneta vermelha sublinhava os erros que encontrava. Também gostava de selecionar fotos de seu acervo, e projetava livros e exposições. Pode-se dizer que foi diretor de fotografia até
o final, quando seu amigo Otto deve ter lhe chamado. “Lew, gotta go!”

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