Berna Reale sapateia no lixão e navega no esgoto em exposição em São Paulo

Por DAIGO OLIVA

O texto abaixo foi publicado originalmente na “Ilustrada” por Silas Martí.

Uma figura de terno e máscara antigás sapateia sobre um tapete estendido num lixão ao som de “Singin’ in the Rain”. Em sua nova performance, Berna Reale, que abre agora uma mostra na galeria Millan, em São Paulo, tenta escancarar as contradições do Brasil, onde “é chique morar à beira do esgoto”.

Essa artista de Belém, aliás, vive entre dois mundos contrastantes, alternando o trabalho de perita criminal com o de artista plástica. Quando não está investigando assassinatos na capital do Pará, está em seus vernissages em São Paulo e no Rio.Talvez venha desse trânsito entre o submundo e a pretensa aura de luxo dos museus e galerias de arte a potência aguda de seus trabalhos.

Reale, 48, já serviu um banquete de vísceras sobre o próprio corpo nu a uma revoada de urubus. Também já foi carregada pelada como uma carcaça animal pelas ruas de Belém e saiu vestindo uma focinheira sobre um cavalo pintado de vermelho. Essas performances já renderam à artista o apelido de Marina Abramovic do Pará, numa comparação com as ações viscerais da performer sérvia, que já tirou a roupa e se mutilou diante do público.

Mas Reale parece preferir a tragicomédia ao drama de Abramovic. Suas ações ironizam os desmandos da política local, sempre beirando o cômico. Nessa pegada histriônica, Reale mandou construir uma canoa que encheu de ratos e saiu remando pelos canais de esgoto de sua cidade, contornando os esqueletos de novas torres de apartamentos que brotam ali.

“Isso tem uma relação com a política”, diz Reale. “Parece que os nossos políticos, como esses ratos brancos, navegam no lixo imunes a tudo o que está ao seu redor.” Em sua primeira individual em São Paulo, Reale também mostra um desfile de garotas usando um aparelho na boca que imita as feições de uma boneca inflável, uma alusão a episódios de assédio sexual.

Vestidas de colegial, com camisa branca e minissaia rosa, suas meninas marcham ao som de uma banda militar. “Queria esse som da repressão”, explica Reale. “É para mostrar o quanto isso é silenciado, como elas se calam.”

Reale, ao contrário, não fica calada, mas arrisca adentrar um território perigoso na arte ao deixar seu trabalho ganhar cada vez mais um caráter panfletário, o que às vezes põe em xeque a força de suas alegorias. Ela diz, no entanto, que suas ações não perderam a crueza. “Não tem treino, então nada se torna algo teatral”, diz a artista. “Ainda interfiro na realidade.”

BERNA REALE
QUANDO abre nesta terça (18), às 19h, para convidados;
de ter. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 11h às 18h; até 20/12
ONDE Millan, r. Fradique Coutinho, 1.360, tel. (11) 3031-6007
QUANTO grátis

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