Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Imagem de cânion no Arizona vira a foto mais cara do mundo: R$ 17 mi

Por DAIGO OLIVA

O australiano Peter Lik é o autor da nova fotografia mais cara do mundo, segundo noticiou o diário “Guardian” nesta quarta-feira (10). A paisagem “Phantom”, registrada no cânion Antelope, no Arizona (EUA), foi vendida a um colecionador que não quis se identificar por US$ 6,5 mi (R$ 17 milhões).

A imagem em preto e branco, que mostra um facho de luz invadindo uma fenda da formação rochosa, ultrapassa a marca de Andreas Gursky, que havia vendido “Rhein II” em 2011 por US$ 4,3 mi (R$ 11,2 mi em valores atuais).

‘Phantom’, de Peter Lik

O pacote de Lik para o mesmo colecionador ainda inclui as obras “Illusion”, negociada por US$ 2,4 mi, e “Eternal Moods”, comercializada por US$ 1,1 milhão, o que coloca quatro imagens do australiano entre as 20 fotografias mais caras do mundo. Em 2010, ele havia vendido “One” por US$ 1 mi.

A estranheza da notícia se dá tanto pelo valor da fotografia quanto pela importância de Lik no mercado de arte. Há quatro anos, quando ele havia vendido a sua primeira imagem por um valor acima de US$ 1 mi, o jornalista australiano Andrew Taylor, do “Sydney Morning Herald”, publicou um texto em que ouvia consultores e donos de galeria de arte locais. “Se eu estivesse aconselhando um cliente a comprar uma obra de arte de 1 milhão de dólares, eu ficaria extremamente cauteloso sobre a aquisição de uma fotografia de Peter Lik, quão boa fosse ela. Justamente porque suas imagens não têm presença ou valor no mercado secundário”, disse o consultor David Hulme.

O diretor da MiCK Gallery, Megan Dick, afirmou que Lik é “competente tecnicamente”. “A qualidade da produção das imagens é ótima, a qualidade da arte é que não”, completa ele, dizendo ainda que uma fotografia necessita de uma ideia, uma reflexão e singularidade para elevá-la à categoria de arte. Dick tem razão. Entre os autores das dez imagens mais caras do mundo, há nomes como Andreas Gursky –já citado–, Cindy Sherman, Jeff Wall e Edward Steichen. Todos eles atendem aos requisitos reclamados pelo galerista.

‘Rhein II’, de Andreas Gursky
Uma das imagens que compõem o díptico ’99 Cent’, de Andreas Gursky

Wall discutiu a fotografia como um embate cruel entre realidade e ficção de maneira impactante. Questões de sua própria identidade estão presentes na obra de Sherman. Gursky, um recordista, com várias imagens entre as mais caras do mundo, usou os princípios da escola de Dusseldorf para construir retratos do capitalismo. Consumismo e mercado financeiro ganharam ares épicos em suas imagens simétricas, belas e imponentes.

Mas Lik parece apenas o fotógrafo oficial dos fundos de tela do Windows. Jonathan Jones, o crítico de arte feroz do “Guardian”, que destilou algumas pérolas sobre fotografia há pouco tempo –e ainda segue destilando–, classificou “Phantom” como “sentimental em seu romantismo estudado,
e de muito mau gosto”. “Parece um pôster elegante que você pode achar enquadrado em uma sala de um pretensioso hotel.” Jones tem razão.

‘Dead Troops Talk’, de Jeff Wall, vendida por 3,6 mi de dólares

As imagens do australiano são os típicos registros que agradam os amadores tarados por recursos técnicos da fotografia e pelos rincões inexplorados do planeta. Suas fotos têm a profundidade de um pires. Meros registros documentais espetaculares, daqueles em que você fica maravilhado pela beleza da natureza, mas que se encerram por ali mesmo, como uma página da revista “National Geographic” ou uma publicação de turismo.

Nada contra os aficionados por fotografias de paisagem. Elas têm o seu valor. Mas, para uma das metades desse blog, o valor das feitas por Peter Lik estão muito abaixo da qualidade de Jeff Wall, Andreas Gursky, Cindy Sherman e dos 17 milhões de reais. A ver qual será o valor de Peter Lik no futuro.

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