Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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‘Birdman’ e ‘Ida’ confrontam estilos de câmera e estéticas na disputa do Oscar

Por DAIGO OLIVA

Na disputa entre os indicados ao prêmio de melhor fotografia do Oscar, cuja cerimônia acontece na noite deste domingo (22), dois longas estão em pontas completamente opostas. Enquanto “Birdman”, filme dirigido por Alejandro González Iñárritu, apresenta uma câmera frenética, que se mexe e acompanha seus personagens sem parar, o polonês “Ida” preza pelas cenas estáticas.

Em tomadas longas, coladas pela construção de um plano-sequência falso,
a trajetória percorrida pela câmera de “Birdman” é conduzida com maestria. Trata-se de um meticuloso trabalho de marcação dos espaços, sem impedir que a movimentação dos atores deixe de ser natural.

Já no longa de Pawel Pawlikowski, indicado também na categoria de melhor filme estrangeiro, estética e fotografia diferem ao extremo do “homem-pássaro”. Em preto e branco e com formato de projeção antigo –quadrado–,
a produção ambientada na Polônia soviética dos anos 1960 é obcecada pela composição dos quadros. Imóveis, as cenas de “Ida” servem como reação às câmeras que balançam o tempo todo sem mostrar nada com propriedade.

Porém, isso não faz com que o filme seja uma sucessão de tomadas em que tudo é apresentado sem sutilezas. Em texto publicado na “Ilustrada”, o crítico Cássio Starling Carlos diz que “os enquadramentos de ‘Ida’ oferecem a ideia de que há mais elementos e situações fora do que no que é mostrado”. “Se são inconscientes para o espectador, não deixam de ser determinantes na história”, completa ele. Mais: a câmera parada é ponto central na concepção coerente desta obra de Pawlikowski.

Sem trilha sonora –exceto pelas intervenções do jazz de John Coltrane–, o longa polonês é minimalista. Os diálogos são econômicos, sua trama vai se desenrolando vagarosamente e cresce no silêncio. Em entrevista à Folha, o diretor diz que sentia falta de um mundo mais simples. “Com menos palavras, menos cor, menos barulho, menos movimento”. Bem diferente de “Birdman”.

O longa de Iñárritu é mergulhado em artifícios estéticos. Do já citado falso plano-sequência a cacofonia de sons da Broadway e dos solos de bateria intermináveis, o resultado da trama protagonizada por Michael Keaton é histérico. Todos os personagens estão em alta velocidade, há muita cor, muito brilho e movimentação. Curiosamente, como escreve o repórter especial da Folha Nelson de Sá em seu blog Cacilda, Iñárritu teve como professor de direção teatral por três anos na Cidade do México o polonês –que ironia– Ludwik Margules (1933-2006), estabelecido no país a partir dos anos 1950.

Nelson nos conta: “Margules, como relata o próprio Iñárritu, foi um diretor e professor rigoroso –um tirano– que deixou como maior ensinamento que a grande arte não está nos efeitos, no que é externo ao ator, e sim na verdade que este for capaz de achar e transmitir. Em suma, o polonês era contra ‘o ornamento, a pirotecnia’, como na Hollywood de hoje, com seus ‘elementos contrários à organicidade'”. Mesmo que seja uma visão crítica, o diretor mexicano pesou a mão e fez aquilo que seu mentor era contra.

Já os poloneses se entendem.

Atualização às 11h50 de sábado (21): A partir de uma discussão na caixa de comentários, fazemos aqui uma pequena correção. Embora o blog considere as decisões estéticas de cada obra responsabilidade dos cineastas (afinal, são produções muito autorais, principalmente “Ida”), é preciso citar os nomes dos diretores de fotografia de cada longa. Em “Birdman”, trata-se de Emmanuel Lubezki, ganhador do Oscar no ano passado por “Gravidade”. Em “Ida”, o trabalho foi feito em dupla: Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski. Obrigado aos leitores pela lembrança.

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