Em autobiografia, fotógrafa de guerra relata sua visão idealista da profissão

Por DAIGO OLIVA

O post abaixo foi publicado na capa da “Ilustrada” em 4/4. O texto foi feito por uma das metades do Entretempos em colaboração com o repórter especial da Folha Rodolfo Lucena. Obrigado, Rodolfo!

A mão tocou nas suas pernas, subiu pelas coxas. Logo vieram outras, agarrando-lhe a bunda, apalpando-lhe a virilha, segurando seus seios. No meio da multidão, que gritava palavras de ordem contra os EUA, a pequena morena norte-americana não via como escapar. Enquanto tentava fotografar um protesto no Paquistão, gritava “proibido!” a quem a atacava.

O estupro parecia inevitável. Na agressão seguinte, ela reagiu. Deu um coice e girou a câmera com força, a lente acertando o rosto de algum homem. Abriu espaço e correu até o carro em que estavam os outros correspondentes.
Esse não foi nem de longe o maior risco na carreira de Lynsey Addario, 41, fotógrafa especializada em registrar o mundo em conflito.

Dona de um prêmio Pulitzer, ela foi sequestrada duas vezes, sofreu um acidente de carro, esteve sob fogo cruzado e viu a morte de dois motoristas que a acompanhavam em áreas de guerra. O gosto de capturar cenas na câmera que ganhara do pai aos 13 anos se tornou trabalho: na Argentina, passou a viver como freelancer, ganhando US$ 10 por foto que emplacasse no “Buenos Aires Herald” ou vendesse para a agência Associated Press.

Essas histórias estão em “It’s What I Do: A Photographer’s Life of Love and War” (é o que faço: a vida de amor e guerra de uma fotógrafa), memórias lançadas em fevereiro nos EUA. Em março, os estúdios Warner compraram os direitos da obra, com Jennifer Lawrence cotada para viver a fotógrafa. No Brasil, será publicado pela Intrínseca, sem data de lançamento.

Addario conta as tragédias que viu em Afeganistão, Iraque, África, e relata seu esforço para registrar o lado das vítimas. Discute questões sobre jornalismo, sua luta para expor o que muitos não querem que seja visto. No campo de batalha, teve seu trabalho cerceado pelas forças americanas no Iraque pós-Saddam –foi enxotada quando registrava soldados contra a população civil.

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Outras vezes, o veto se revelou nos gabinetes de Nova York: a revista “Life” a contratou para registrar a volta de soldados feridos, mas desistiu de publicar as imagens, “reais” demais. A revista do “New York Times” engavetou a foto de um menino afegão atingido por estilhaços de bombas das tropas da Otan.

Addario ainda trata da vida pessoal ao contar a agonia que sentiu ao saber que estava grávida de Lukas, seu único filho com Paul de Bendern, jornalista da agência Reuters. Para ela, ficar longe do trabalho seria como morrer. Texto e imagens são emocionantes e, às vezes, brutais. Por e-mail, ela falou à Folha.

Como foi o processo de escrever o livro?

Mantive diários por anos, especialmente nos meus primeiros anos de fotografia. Mas usei também e-mails e correspondências. Entrevistei amigos e familiares, e revi todas imagens que fiz, sem edição, para me levar ao visor da câmera e para onde estava emocionalmente naquele período.

Você teve algum estresse pós-traumático após todas as guerras ?

Depois que estive com o Exército dos EUA no Vale do Korengal, no Afeganistão, em 2007, tive dificuldade para voltar à minha vida. A missão acabava numa operação para achar insurgentes. Caímos numa emboscada e três soldados foram atingidos, um deles morto. Quando voltei a Istambul, não parava de chorar. Não só pelas mortes, mas pela futilidade da guerra. Quando meus colegas Tim Hetherington e Chris Hondros foram mortos, entrei em colapso. Questionei por que somos compelidos a contar essas histórias. Vi a dor que causava à família e aos amigos. Senti que é uma profissão egoísta.

O fotojornalismo é um meio dominado por homens. Existe machismo na profissão?

Ainda é uma profissão dominada por homens, mas há muitas mulheres que registram histórias difíceis e trabalham em zonas de guerra. Em termos de proporção, há uma grande disparidade, mas, ao fim do dia, todos somos julgados pelas fotografias que produzimos. Se você é um fotógrafo intenso, seja homem ou mulher, será respeitado pelo seu trabalho.

O que achou da possível escolha de Jennifer Lawrence para viver o seu papel no cinema?

Não posso dizer quem fará meu papel ou dirigirá o filme porque tudo está em estágio preliminar. Só posso esperar que o filme traga compreensão ao grande público sobre a vida de correspondentes de guerra e a importância dos assuntos que registramos. Espero que acabe com alguns mitos, como o de que somos viciados em adrenalina, pois a maioria é movida por uma causa maior.

No livro, você se diz confusa sobre a venda de suas fotografias de guerra em galerias de arte. Aconteceu o mesmo com a venda dos direitos da biografia para o filme?

Vender as fotografias me fez pensar se estava me aproveitando da miséria dos outros. Mas quase todo o dinheiro que ganhei na carreira foi gasto para contar histórias de conflito, desastres humanitários e abusos. Com os direitos para o cinema, vendo minha história. Não tive essa questão porque são as minhas experiências. Se posso chamar atenção para questões como guerra, pobreza, crises humanitárias e estupros, agora para grande audiência, via Hollywood, só posso esperar que mais pessoas passem a se importar com esses temas.

Muitos fotojornalistas dizem que imagens explícitas de violência ajudam a expor a brutalidade das guerras. Concorda?

Às vezes. Não concordo quando mostram violência gratuita. Imagens têm que contar uma história ou contribuir com informações para relatar aquele caso. Não queremos entorpecer os leitores com violência ao ponto em que não se importem mais com nada. Ou que as imagens sejam tão gráficas que o leitor apenas vire a página sem perceber o que está olhando.

Numa passagem do livro, você questiona a eficácia do jornalismo. 

Infelizmente, não tenho resposta consistente. Só posso torcer para que o jornalismo continue a educar as pessoas e a nos dar registros de nossa época. Precisamos dar nosso testemunho para motivar as pessoas a agir.

Você é uma pessoa otimista?

Embora tenha visto tanta maldade, também vi generosidade e beleza. Pessoas de fantástica resiliência. Tento guardar esses momentos para ter esperança.

E se considera romântica?

Sempre me apaixono pelas pessoas que encontro e sempre olho para o melhor delas. Romance pode ser encontrado tanto no trabalho quanto no amor.

Você ficaria grávida novamente?

Vamos combinar que você nunca me perguntou isso.