Entretempos

Imagens diluídas em diferentes suportes

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Editado por Daigo Oliva, editor-adjunto do Núcleo de Imagem da Folha, o blog aborda os diferentes suportes da imagem, com ênfase sempre na fotografia.

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Fotografia livre de críticas só contribui para o atraso da produção brasileira

Por DAIGO OLIVA

No fim de 2013, “Karma”, de Óscar Monzón, recebeu o prêmio da feira Paris Photo de melhor fotolivro de estreia. A era de ouro da fotografia espanhola atingia ali um novo pico, numa espécie de consagração dos fotógrafos do país ibérico que apostaram nas publicações impressas como a melhor maneira para se expressar. O que chamava ainda mais a atenção até aquele ponto
era a quantidade de obras produzidas por um mesmo coletivo, o BlankPaper.
Além de “Karma”, havia “Paloma al Aire”, de Ricardo Cases, “Casa de Campo”, de Antonio Xoubanova, e “C.E.N.S.U.R.A.”, de Julián Barón.

Em dezembro daquele ano, entrevistei Fosi Vegue, membro do coletivo, diretor da escola administrada pelo grupo e autor de “XY XX”. Ao falar das razões que levaram à mentalidade de que seus trabalhos precisavam ser concebidos exclusivamente como fotolivros, Vegue atribui a qualidade das obras do BlankPaper à visão crítica compartilhada entre seus integrantes.

Na mesma medida em que a obsessão por produzir algo diferente e bem feito pode, para muitos, cair na arrogância, uma postura livre de críticas só alimenta obras inofensivas. Na fotografia brasileira, há muitos elementos que contribuem para que exista um ambiente em que o importante é apenas participar –ou celebrar. Além de debates que estimulem o confronto de ideias, falta visão crítica sobre o que estamos produzindo. Parte dessa ausência vem da maneira como recebemos a opinião dos outros: o elogio é sempre isento, enquanto a crítica negativa deve ser fruto de algum problema pessoal.

Esta incapacidade em gerar espaços para confrontar conceitos e abordagens está espalhada em todos os níveis. Até mesmo nos festivais, que deveriam servir para levantar reflexões. Eventos modelados apenas para que os artistas divaguem sobre os seus trabalhos, sem contraposições, além de chatos, pouco contribuem para entender a fotografia em um espectro mais amplo. Entende-se a visão do fotógrafo da maneira como ele quer, mas pouco se discute de que forma seu trabalho está inserido em contextos locais e globais.

Há exceções, claro, como o Encontro de Fotolivros, realizado em abril no Sesc Vila Mariana, e a inauguração da Escola Livre –série de oficinas e aulas sobre fanzines. Nesta quinta (28), aliás, começa o 4º Encontro Pensamento e Reflexão da Fotografia, no MIS, com programação extensa durante três dias.

Reconheço que não é fácil produzir debates de alto nível. Há cerca de três meses, participei de uma mesa durante a Feira Plana sobre duas visões –nem sempre– antagônicas da fotografia: o mundo íntimo, em que a experiência pessoal do artista é o centro da obra, contra trabalhos em que o foco é o interesse pelo outro. Duas premissas críticas estavam em jogo. De um lado, o mundo que gira em torno do próprio umbigo e, do outro, a superficialidade de ensaios documentais, resolvidos sem profundidade com o assunto.

Embora parte da mesa tenha se tornado um “tiroteio” (calma, sem palavrões, sem brigas, uma discussão feita por adultos educados, embora exaltados), foi notável a boa participação do público, que contestou e se sentiu provocado pelo o que foi abordado. Assim como eu, muitos ficaram contrariados com algumas posições apresentadas, o que é muito saudável. Nestes debates em que as questões são concebidas a partir de estereótipos, opiniões mais extremas sempre dão as caras, mas faz parte do jogo. Mais tarde, acredito, o incômodo geral se transformou em reflexões.

Há muitos fotolivros no Brasil que merecem destaque. Há também, porém, um oceano de publicações ruins. Ao critica-las, não se trata de ataques pessoais, preconceito ou falta de respeito. É preciso assimilar críticas com
um pouco mais de maturidade, rebatê-las, criar um ambiente em que a argumentação objetiva seja bem-vinda. Acredito que, onde ainda há muita falta de repertório –sobretudo no design das publicações–, a política do tapinha nas costas afunda este atraso ainda mais. É provável que Monzón não recebesse prêmio algum caso não tivesse alguém com sinceridade para dizer que, em dado momento, seu livro ainda não estava pronto.

Precisamos criticar mais e saber como absorver as opiniões contrárias de um maneira positiva. A caixa de comentários abaixo está aberta para críticas.

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