Com imagens desconstruídas, carioca expõe sensação de não pertencimento

Por DAIGO OLIVA

Nos trabalhos da artista carioca Alice Quaresma, 30, uma fotografia nunca
é bidimensional. Suas imagens são rasgadas por fitas coloridas, recortes de papel e tinta acrílica, criando fotos mais próximas de esculturas. Esculturas que parecem desconstruídas, como se colocadas em um liquidificador.

A partir desta quinta (18), a artista apresenta “Além”, exposição na Fauna Galeria e sua primeira individual em São Paulo. Radicada em Nova York há oito anos e fora do país há 12 –ela também viveu em Londres–, Alice utiliza o caos com que compõe as obras para falar sobre sua condição de imigrante.

Se as imagens são fatiadas e confusas, engana-se, porém, quem deduz que
sua experiência longe de casa seja traumática. “Hoje, muitas pessoas podem ser imigrantes sem morar fora do lugar de onde vieram”, explica ela, com forte sotaque carioca. “Falo mais sobre esse sentimento contemporâneo de não pertencer a lugar nenhum”, finaliza.

Por isso, Alice mistura registros produzidos em países nos quais esteve
apenas de passagem a outros feitos nas cidades onde viveu. Depois, interfere nas fotos para conferir texturas e volumes a elas. Embora ela atribua ao movimento brasileiro neoconcretista grande parte da influência em sua produção –por conta das formas geométricas irregulares e da preocupação com questões sensoriais–, a artista está inserida num cenário recente da fotografia, batizado de novo formalismo.

Alavancado por nomes como os americanos Daniel Gordon e Matt Lipps,
este grupo de artistas combina fotografia a outros suportes, como escultura, colagem e pintura. Neste método cheio de camadas, muitas vezes o processo criativo parece mais importante do que o resultado final. Este aspecto também está presente na mostra, que terá no segundo andar da galeria duas mesas que simulam o espaço de criação da artista.

Em meio às 16 obras, uma imagem parece deslocada. A foto “Encontro” mostra uma imagem nítida, sem interferências –uma cena banal em que pessoas estão andando. Para Mario Gioia, curador da exposição, o registro cotidiano aparece ali como um estranhamento e “uma forma de não deixar a exposição monotemática”. “Além” marca também a abertura do novo espaço da Fauna Galeria, agora no bairro da Vila Mariana, depois de cinco anos localizada nos Jardins. É irônico e interessante iniciar um novo endereço
com uma artista que desconstrói suas obras.

ALICE QUARESMA
QUANDO abertura nesta qui. (18), às 19h;
seg. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 10h às 14h; até 1º/8
ONDE Fauna Galeria – r. Tangará, 132, tel. (11) 3668-6572
QUANTO grátis

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